segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

FESTA DO SENHOR SANTO CRISTO DE IPOJUCA 2010 - 2011

A BANDEIRA - no dia 22 de dezembro deste ano de 2010, teve início em Ipojuca (na Mata Sul de Pernambuc), em plena área do Complexo de SUAPE, com a noite da BANDEIRA, o novenário em preparação para a festa do SENHOR SANTO CRISTO OU O SENHOR BOM JESUS do santuário franciscano do Convento de Santo Antônio. É tal a popularidade da devoção ao SENHOR SANTO CRISTO, que seus devotos estenderam o nome também ao Convento: Convento do SENHOR SANTO CRISTO. Devoção quase quatro vezes centenária como o seu Convento que já passa disto (1606 -2011). O que pouca gente sabe (até msmo entre os frades) é que essa devoção vem sem interrupção desde o seu início no ano de 1663. Certamente a segunda mais antiga devoção ao BOM JESUS de todo o Brasil, já que a do Senhor Santo Cristo ou Bom Jesus de Iguape (São Paulo) teve o seu culto público aberto a 2 de novembro de 1647 (veja na Internet, pesquisa Google). No entanto, a origem das imagem é lendária, ao passo que a história do Senhor Santo Cristo de Ipopjuca tem um núcleo histórico garantido por documentos inda hoje preservados.
Para prosseguirmos, uma transcrição feita por Frei Venâncio do historiador Padre Manuel Barbosa [1] sobre as numerosas invocações do Crucificado entre nós:
Como enternece a alma católica procurar um bálsamo para mitigar as dores físicas e morais, invocando o Senhor Bom Jesus da Agonia, da Esperança, da Consolação, da Boa Sentença, do Bonfim, dos Navegantes, do Bom Caminho, dos Milagres, dos Pobres, dos Necessitados, dos Agonizantes, dos Perdões, dos Remédios, da Cana Verde...
E Frei Venâncio prossegue com a transcrição:
Os mais célebres santuários brasileiros dedicados a N. Senhor Jesus Cristo são: Sr. do Bonfim e Sr. Bom Jesus da lapa, Bahia; Sr. Santo Cristo de Ipojuca, Pernambuco; Sr. Bom Jesus de Matosinhos e Sr. Bom Jesus de Congonhas, Minas; Sr. Bom Jesus de Pirapora e Sr. Bom Jesus dos Perdões, São Paulo; Sr. Bom Jesus de Iguape em Santa Catarina. O santuário de Ipojuca é dos mais antigos. [2]
Poderíamos acrescentar muitos outros, entre eles a imagem milagrosa de Cristo das Necessidades, venerada numa capela laterai da igreja do convento franciscano de Sirinhaém: “intronizada em seu altar em 1775”, 100 anos depois da do Senhor Santo Cristo de Ipojuca. [3]
" Os jansenistas não conseguiram tirar da alma de nosso povo a ternura e a compaixão pelo Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1. 23).
Podemos dizer, sem sombra de erro, que a imagem do SENHOR SANTO CRISTO DE IPOJUCA é a segunda mais antiga de todo o Brasil.
[1] BARBOSA, Padre Manuel -, A Igreja no Brasil, p. 263.
[2] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Santo Cristo de Ipojuca, Rio de Janeiro,1956, nota 7 ao Cap. XI, p. 88.
[3] Id. Ibd. p. 40.
Agoran vejamos o que escreve Guy de Ridder:
Não há no mundo de fala portuguesa quem não conheça a invocação de O Senhor Bom Jesus. Somente no Brasil, ele é o Titular de mais de 200 igrejas, algumas delas basílicas ou santuários nacionalmente famosos, como a do Bom Jesus da Lapa, Bahia, e a do Bom Jesus de Pirapora, São Paulo. Sob essa comovedora invocação veneram- se imagens de nosso Divino Redentor especialmente em episódios de sua Paixão [...]
Pe. Carlos Antônio da Silva é grande estudioso dos Santuários do Bom Jesus
existentes no Brasil, com um manto de púrpura e a coroa de espinhos, ou pregado na Cruz. Mas há também numerosas imagens do Bom Jesus do Horto representando Nosso Senhor em sua agonia no Jardim das Oliveiras. Bom Jesus dos Passos, em sua subida ao Monte Calvário. Bom Jesus da Coluna, no momento da flagelação do Senhor. E assim por diante. A imagem venerada na Basílica do Senhor Bom Jesus na cidade paulista de Tremembé, é certamente a mais antiga de que se tem conhecimento. Ela foi benta pelo vigário da igreja de Nossa Senhora da Conceição em 1663, mais de 50 anos antes de ser encontrada no Rio Paraíba a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Além disso, é uma das mais piedosas e de maior valor artístico.
Discordamos dos ilustres pesquiosadores, comenta Frei José Milton: a imagem do Bom Jesus de Tremembé foi exposta ao culto público somente em 1672, quando se construiu a sua Capela no local onde se encontra a atual Basílica. Da antiga capela nada restou, ao passo que a imagem do Bom Jesus de ipojuca foi entronizada em 1665 em sua Capela que ainda hoje se conserva dentro da igreja do Convento, tendo sofrido apenas pequenas alterações em quase quatro séculos de existência.
"Ipojuca tornou-se a terra de Santo Cristo em 1663, ano em que a imagem milagrosa deve ter vindo de Portugal", escreve Frei Venâncio Willeke ("Convento de Santo Antõnio de ipojuca, Rio de Janeiro, 1956 p. 33).
O mesmo historiador franciscano cita Frei Jaboatão e o Livro dos Guardiães de Ipojuca que serviu de fonte a este para afirmar que o Santuário do Senhor Bom Jesus de ipojuca (Santo Cristo) teve o lançamento de sua primeira pedra em 1663 (a 04 de novembro). Mas a entronização da imagem só aconteceu no dia 14 de setembro de 1665, Festa da Exaltação da Santa Cruz (festa que, no calendário litúrgico, ainda hoje é nesta data). Certamente não se quis esperar até 1º de janeiro, dia em que há séculos se festeja o Senhor Bom Jesus. Provavelmente em 1º de janeiro de 1665 se celebrou a Primeira Festa do Senhor Bom Jesus do Convento de Ipojuca (o Santo Cristo).
Por fim, colocamos um questionamento a respeito da imagem e do culto do Senhor Santo Cristo ou Bom Jesus de Iguape: será que a documentação de sua história tem o peso da relacionada com a imagem e o culto do Senhor Bom Jesus ou Santo Cristo de Ipojuca? Se aquela documentação não resiste à critica abalisada, ousaria afirmar a precedência cronológica da veneração ao Senhor Santo Cristo de Ipojuca.
O PORQUÊ DA FESTA A PRIMEIRO DE JANEIRO -
Em consonância com a tradição franciscana da devoção ao Santissimo Nome de Jesus, devoção que remonta à Idade Média e mesmo ao tempo de São Francisco, de Santo Antônio, do Beaventurado João Duns Scotus, de São Boaventura, de São Bernardino de Sena, de São João Capistrano e de muitos outros, os primeiros franciscanos de Ipojuca celebravam a festa do SENHOR SANTO CRISTO a 1º de janeiro, dia do Santíssimo Nome de Jesus, festa que, no calendártio da Igreja se conservou naquela data, até o Concílio Vaticano II, quando a reforma litúgica, a substituiu pela Solenidade da Santa Mãe de Deus Maria.
Mas em Ipojuca, continua de pé a tradicional festa do SENHOR SANTO CRISTO NO DIA PRIMEIRO DE JANEIRO. No tempo do Vigário Frei Humberto Wallschlag foi alterada a tradição do novenário, pois o Vigário não aprovava a novena do SENHOR SANTO CRISTO no tempo da Novena do Natal. Achou por bem, sem consultar os paroquianos e sem prepará-los para a mudança, reduzir a reparação para a festa do Bom Jesus de ipojucva a um simples Tríduo. Foi grande o desgosto dos paroquianos; a participação dos mesmos na festa foi grandemente prejudicada, de tal forma que se voltou à tradição da novena.
Nota: Em 1979 (31 de janeiro) – Frei Humberto Wallschlag, OFM, Vigário até janeiro de 1982. Sua Provisão de Vigário da Paróquia de S. Miguel de Ipojuca é passada pelo Sr. Arcebispo Metropolitano Dom Helder Câmara e subscrita pelo Vigário Geral Dom José Lamartine aos 31 de janeiro de 1979.
Em janeiro do mesmo ano o Congresso Provincial o nomeou Guardião da Casa de Noviciaso de Ipojuca. Fica como Vigário e Guardião até 13 de fevereiro de 1982.
Consta no Livro dos Guardiães (Arquivo do Convento de ipojuca e da Província Franciscana) que a tradicional festa do SERNHOR SANTO CRISTO só veio a ser interrompida durante a Revolta Praieira (1848 - 1849), anos em que não foi possível se realizar a festa, uma vez que, por determinação do Sr. José Francisco do Rego Barros, opositor dos Praieiros, o Convento estava servindo de quartel às tropas da legaliodade e de prisão aos praieros, e houve tiroteio. Consta em documentos que frei José Milton teve em mãos no Arquivom Público de Pernambuco, que, num desses tiroteios, os praieiros atingiram com suas balas o Santo Cristo do Côro do Convernto. O fato serviu, aos inimigos do Partido Praiero, de libelo contra a Praia: foi acusada de atentado contra a religião católica e de total falta de respeito ao sagrado. O comentarista do Livro dos Guardiães escreve a respeito da supressão da festa: "O cancelamento da festa tradicional [...] parece constituir um fato único nos anais do Santuário e uma ocorrência inaudita para os romeiros."

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

OITEIRO DE MARACAÍPE

GAMELEIRA SECULAR


CEMITÉRIO EM RUÍNAS



CAPELA RESTAURADA INTERNAMENTE PELO ATUAL VIGÁRIO FREI FRANCISCO ROBÉRIO




Volta às páginas dos jornais o descalabro em que se encontra o Patrimônio Natural de Maracaípe. Veja o que estampa, com grandes fotos, o JC de ontem, em sua secção "Cidades", pg. 4, da autoria de Verônica Falcão, admiradora do carisma ecológico franciscano:









"MÃE NATUREZA

DEVASTAÇÃO AMEAÇA RESERVA EM MARACAÍPE





Pontal de Maracaíope

Publicado em 19.12.2010, no Jornal do Commercio Cinco anos depois de tomar dos franciscanos uma reserva de 76,21 hectares em Maracaípe, Ipojuca, na Região Metropolitana da capital, a Arquidiocese de Olinda e Recife devolveu, mês passado, a propriedade sem cerca, sem porteira e com mais de 20 casas construídas irregularmente. O lugar, única unidade de conservação particular do Estado que reúne Mata Atlântica, restinga e manguezal, é ainda alvo de queimadas, desmatamento e passeios turísticos de buggy e cavalo. Sem manutenção, a estrada que dá acesso à igrejinha localizada na parte mais alta da área, de onde se avista a vegetação nativa, o mar e rio, encontra-se intrafegável. Uma das laterais do templo, devotado a Nossa Senhora da Conceição, está desmoronando. Na outra, há um cemitério onde a comunidade do entorno ainda enterra seus mortos, mas o muro que separava os túmulos da mata desmoronou. O único vigia que fiscaliza os 130 hectares da propriedade diz que não tem controle sobre os sepultamentos. Um dia desses a prefeitura veio aqui e me disse para informar ao povo que só é para enterrar se tiver atestado de óbito. Mas se chegar um bandido para enterrar alguém aí de noite, não vai encontrar dificuldades. A propriedade não tem nem porteira, alerta José Francisco da Silva, que toma conta do lugar há 15 anos. O impasse entre a arquidiocese e os franciscanos, hoje desfeito, teve início em 2005, quando o então arcebispo, dom José Cardoso Sobrinho, instituiu a Paróquia de Nossa Senhora do Ó, em Ipojuca. Ele definiu que todas as terras da igreja da PE-60 em direção ao litoral, inclusive a reserva, passassem a ser da nova paróquia, pertencente à diocese. Já os imóveis religiosos existentes da rodovia estadual em direção ao continente, continuariam sendo dos franciscanos. Com isso, a reserva dos frades passou para a Paróquia de Nossa Senhora do Ó. Nesses cinco anos, três padres se revezaram à frente da paróquia, sem que nenhum tomasse conta da unidade de conservação. Eles não deram atenção ao lugar, constata o franciscano Robério Ferreira da Silva, responsável pela Paróquia de São Miguel, no mesmo município. Os frades criaram a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Nossa Senhora do Oiteiro de Maracaípe em setembro de 2000. A portaria do Ministério do Meio Ambiente foi publicada no Diário Oficial da União no dia 27 de setembro. A unidade de conservação teve origem no ideário do santo italiano São Francisco de Assis (1182-1226), considerado o patrono da ecologia. Estávamos usando o local para formar, através de educação ambiental, uma geração de frades comprometidos com a conservação. Quase 20 frades chegaram a fazer cursos lá. Infelizmente, o projeto foi interrompido quando perdemos a gestão do lugar, relata frei Sinésio Araújo, idealizador da RPPN. Como esse tipo de reserva, por lei, tem caráter perpétuo e irrevogável, os franciscanos deixaram de gerenciar a área, mas a reserva não deixou de existir. O imbróglio teve fim em setembro, qu..."



NOSSO COMENTÁRIO

Votamos ao tema por um questão de compromisso com a verdade. De parabéns está o JC pela atualidade e qualidade da reportagem. Poucas vezes um tema ligado à Igreja é tratado com tanto esmero e, tecnicamente, impecável. Mas achamos por bem completar o artigo com alguns comentários que ajudarão os leitores a avaliar a quem cabem as responsabilidades na devastação da reserva de Nossa Senhora do Oiteiro.



Segundo Frei Sinésio Araújo, o descaso com a área teve início com o afastamento de Frei Sinésio, idealizador e gestor da RPPM. Frei Sinésio e de seus colaboradores Frei Gilton Rezende, Frei João Pereira e os Noviços Franciscanos de Ipojuca, deixaram a reserva em situação invejáveçl. Com a criação da Paróquia de Nossa Senhora do Ó e seu desmembramento da Paróquia- mãe (São Miguel de Ipojuca), tanto os Currais de São Miguel, como Nossa Senhora do Oiteiro caíram em completo abandono.

Não valeram as preces que Frei Sinésio dirigia a Nossa Senhora do Oiteiro em seu santuário quatro vezes secular, para que defendesse a reserva. Onde falta o humano, pouco vale o divino. Videant consules.
Hoje, a administração do patrimônio constituído pelos Currais de São Miguel e Nossa Senhora do Oiteiro voltou aos franciscanos, sinal do reconhecimento do Governo Arquidiocesano da validade do trabalho dos frades nessas áreas.
Também os limites das Paróquias de São Miguel de Ipojuca e de Nossa Senhora do Ó serão reestudados.
O Vigário Frei Francisco Robério já concluíu a restauração da Capela do Oiteiro e junto a D. Fernando Saburido procura uma solução para os patrimônios ameaçados dos Currais de São Miguel e de Nossa Semnhora do Oiteiro de Maracaípe.











quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DOCE É SENTIR

CANÇÃO FRANCISCANA

SE VOCÊ NÃO CONHECE ESTA CANÇÃO, OUVINDO-A, VAI DORÁ-LA! É DO FILME IRMÃO SOL, IRMÃ LUA DE ZEFIRELLI, INÍCIO DA DÉCADA DE 80. O FILME NOS LEVOU A AMAR MAIS SÃO FRANCISCO E SANTA CLARA.
OUÇA E VEJA:

DOCE É SENTIR

Doce é sentir:
Em meu coração,
Humildemente,
Vai nascendo amor.
Doce é saber:
Não estou sozinho,
Sou uma parte
De uma imensa vida
Que, generosa,
Reluz em torno a mim,
Imenso dom
Do teu amor sem fim.
O céu nos deste
E as estrelas claras,
Nosso irmão sol,
Nossa irmã lua,
Nossa mãe terra
Com frutos, campos, flores,
O fogo e o vento,
O ar, a água pura,
Fonte de vida
De tua criatura,
Que, generosa,
Reluz em torno a mim,
Imenso dom
Do teu amor sem fim.

ACORDES PARA VIOLÃO:

G Am7 Bm C D7(9) G Doce é sen - tir... em meu cora - çãoEm D D9 Bm C Am7 D7Hu - milde - mente vai nascendo o amorG Am7 Bm C D7(9) G Doce é sa - ber... não estou sozinhoEm D D9 Bm C Am7 D7Sou u - ma parte de uma imensa vidaG Em Am D7 G Que genero - sa reluz em torno a mim Em Am D7 G Imenso do - om do seu amor sem fim G Am7 Bm C D7(9) G O céu nos deste as estrelas clarasEm D D9 Bm C Am7 D7Nos - so'irmão sol, nossa irmã, a luaG Am7 Bm C D7(9) G Nossa mãe terra, com frutos, campos, floresEm D D9 Bm D Am7 D7O fo - go e o vento, o ar e água puraG D D9 Bm C Am7 D7 Fonte di - vina de tua criaturaG Em Am D7 G Que genero - sa reluz em torno a mim Em Am D7 G Imenso do - om do seu amor sem fim
Acordes: para violão
·
VÍDEO: desta vez não conseguimos trazê-lo para o blog , mas você pode encontrar vários, pesquisando no Google: vídeos com Doce é Sentir de Irmão Sol, Irmã Lua, de Zefirelli.

·

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ORDEM TERCEIRA DE SÃO FRANCISCO EM IPOJUCA

UM POUCO DA HISTÓRIA
A IMAGEM DE S. ROQUE
– Havia no Convento, por volta de 1703 uma imagem de S. Roque. Era o Patrono da Ordem Terceira de Ipojuca. Tinha a sua festa a 02 de janeiro. A imagem de S. Roque se encontrava na capela lateral do Bom Jesus, a capela do Sr. Santo Cristo, chamada também de antigo Santuário. Hoje se acha no nicho lateral, frente ao altar da Conceição.
O Inventário de 1852 lhe atribuía 2 pares de cortinas com sanefas.

A ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO

O culto a S. Roque aponta para a existência de uma Fraternidade da Ordem Terceira em Ipojuca. Sabemos que ela existiu, embora nos faltem dados mais precisos sobre a sua atuação. “Sobre a fundação da fraternidade terciária de Ipojuca, não temos dados exatos. Informa o Novo Orbe Seráfico: ´Na Congregação de 16 de junho de 1703, se nomeou o primeiro Comissário dos Terciários para esse Convento [de Ipojuca]. Se antes disto havia já ali alguns Irmãos desta Venerável Ordem, dirigidos pelos Prelados e Guardiães da casa, não temos certeza. Tomaram por titular o Glorioso S. Roque, e a sua imagem se acha colocada no altar do Sr. Santo Cristo, sem mais ato algum da sua Ordem que tomarem hábito, professarem, fazerem eleição de ministro e mais ofícios e celebrarem a festa do seu santo titular no outro dia depois que se soleniza a do Sr. Santo Cristo, por ser esta a ocasião de maior concurso de gente no lugar.´ ” [1]





Para se ter idéia da situação em que se encontrava a Ordem Terceira de São Francisco quando da chegada dos frades restauradores na última década do século XIX, é bom não perder de vista a situação em que se encontrava a Igreja no Brasil diante da política régia inspirada pelo regalismo português:
“Em princípios do século XVIII, expediam-se decretos res­tringindo a construção de novos conventos, e permitindo apenas hospícios. em lugar de conventos, nas aldeias de índios missio­nadas pelos religiosos, para limitar o número dos missionários. Na realidade, contribuiu este dispositivo para relaxar a disci­plina regular, dando também margem a abusos.
Limitado o número dos conventos, o regalismo português reduziu o número dos próprios religiosos, restringindo a aceita­ção de candidatos às diversas Ordens . Seguiu-se a proibição de certas atividades, como, por exemplo, o ensino elementar nas escolas religiosas.
A conseqüente decadência das Ordens foi favorecida pela aquisição de abundantes privilégios e títulos, como também pela lei da alternativa, e pela demasiada submissão dos religiosos portugueses às exigências injustas da metrópole. Não negamos que a falta de disciplina regular, existente em muitos conventos daquele tempo, representasse um grande mal. Entretanto, muito mais funesta foi, para a vida religiosa, a intromissão do governo civil nos negócios internos da igreja e das Ordens, irrogando-se a coroa portuguesa direitos e poderes que não lhe cabiam, como aliás fez também o Império Brasileiro até sua queda em 1889.
Para acabar com certos abusos, como os havia em muitas Ordens, não se tornava indispensável extinguir as comunidades religiosas, e sim reformá-las. Quantas perdas de valores irre­cuperáveis teriam sido evitados pelos governos, no terreno da arte, da história, da literatura e da religião, se se houvesse conservado e garantido a marcha da vida religiosa nos conventos do Brasil
Enquanto o convento ipojucano, de 1739 a 1749, contava dezoito a dezenove religiosos (5 e 6), a partir de 1796 não abrigava mais de cinco, chegando a ficar desabitado em 1890.
Mais do que qualquer outro estabelecimento, ressentiu-se da falta de sacerdotes, em face do santuário que lhe ficava anexo como alvo de ininterruptas peregrinações. Haviam-se desva­necido as solenidades do culto divino. Desde muito que o claustro não presenciava as longas fileiras de franciscanos ao ensejo das rasouras e demais exercícios de piedade realizados em comum.” [2]

Vejamos agora o que escreve Frei Venâncio Willeke sobre o contexo histórico da obra restauradora, em seu livro Convento de Stº Cristo de Ipojuca: [3]
“Morrendo, a 24 de junho de 1890, o último guardião e inqui­lino do convento ipojucano. parecia esse prédio quase trissecular fadado a completo abandono e desmoronamento. Durante os dois anos seguintes. o superior franciscano de Sirinhaém único sobrevivente religioso. se encarregou de administrar a casa conventual. até que também ésse ancião baixou à sepultura, em 1892.
Como o convento houvesse recebido o último conserto parcial. durante a gestão de frei Antônío da Rainha dos Anjos (1850-1852), é fácil imaginar o estado deplorável a que chegara o prédio com a falta completa de religiosos. O último inventário da época aponta objetos de longa duração, que entretanto desa­pareceram para sempre, não constando se devido ao abandono trienal do convento (1892-1895), ou se os próprios franciscanos se desfizeram deles .
Antes que os ipojucanos esperassem, apareceu, em meio ao abandono, uma vaga promessa de outros religiosos. E que a 27 de dezembro de 1892 e a 8 de junho de 1893, respectivamente, haviam chegado à Bahia as duas primeiras turmas de francis­canos alemães da Província Saxônia, a primeira chefiada por frei Amando Bahlmann, e a segunda pelo padre comissário provincial, frei Irineu Bierbaum (11 e 12). Ambos percorreram, ainda em 1893, os conventos do Recife, Olinda e Ipojuca, para verificar se convinha restaurá-los.
Convencendo-se das tristes condições em que vivia a paró­quia de S. Miguel de Ipojuca, pregou frei Amando duas missões, ao ensejo das festas tradicionais do Sr. Santo Cristo de Ipojuca, em 1894 e 1895, preparando a um tempo o ânimo da população para a possível chegada dos franciscanos alemães.
De fato, em princípios de 1895, apareceu em Ipojuca o pri­meiro franciscano, com ordem de ocupar o convento. Era frei Fernando Oberborbeck, que cooperara na segunda missão pre­gada por frei Amando. Em fins de abril do mesmo ano, tomou posse do convento o. primeiro superior, na pessoa de frei Adalberto Kirschbaum, a quem o bispo de Pernambuco, logo em meados de maio, entregou também o paroquiato.
Salvara-se de completa ruína o venerando convento de Santo Antônio de Ipojuca, e garantia-se a vida regular, interrompida havia muito tempo.
Para fazer idéia do que significava a restauração da vida franciscana, ouçamos uma testemunha ocular, frei Joaquim do Espírito Santo, um dos últimos sobreviventes da antiga Pro­víncia. De sua carta, dirigida ao padre comissário frei Irineu, extraímos os tópicos mais expressivos:
Devemos muitíssimo a Vossa Paternidade e aos vossos irmãos de hábito. fiada direi dos benefícios que nos fizestes em tão larga escala e de que sempre nos recordaremos; nem falarei da restauração da Província que outros puderam fazer; mas falarei do modo desta restauração, da observância da regra, da vossa excessiva caridade e da de todos os confrades alemães, para com nós brasileiros, também vossos irmãos de hábito, e sobretudo pelo coração; falarei dos exemplos de piedade e de todas as virtudes que nos servem de lição e incitamento.
Bem me disse nosso confrade frei Antônio da Ascensão ´Agora, vendo o que fazem os nossos irmãos germânicos, mais ainda me lembro das contas que tenho de prestar a Deus da minha administração´.
Falando assim exprimiu meus próprios sentimentos. Tenho trabalhado muito pela restauração da nossa Província, consa­grando-lhe todos os meus esforços. Este pobre homem clamou ao Senhor e foi atendido. Mas, não havia esperado tantas bênçãos e tanta felicidade. Deus seja bendito que mandou tantos e tais operários para a sua vinha seráfica; já posso dizer com o sal­mista: ´Agora despedis o vosso servo em paz, porque meus olhos viram a restauração da nossa Província por que tanto anela­ra´. [4]

Coma chegada dos frades restauradores da Província Franciscana da Saxônia, o primeiro vigário franciscano de ipojuca, Frei Adalberto Kirschbaum, relata:
“Quando Frei Ireneu retornou à Alemanha, Frei Amando se tornou Comissário. No ano de 1895, aceitou ele o antigo convento, em Ipojuca, em situação deplorável. Eu fui para lá enviado, como superior e pároco – o primeiro pároco da Província do Norte. A paróquia tinha cerca de 2'7.000 almas e 20 capelas. Dela dizia o Ex.mo Bispo D. Manuel dos Santos Pereira, que era a pior paróquia de sua Diocese”.
No Capítulo XIII de sua obra sobre o Convento de Ipojuca, trata Frei Venâncio da
VENERÁVEL 0. 3.ª DE S. FRANCISCO
A história da Ordem Terceira de Ipojuca é tão puco conhecida dos próprios frades, que acho por bem transcrever o que escreve Frei Venâncio sobre ela:.
“Além das Ordens dos Frades Menores (Franciscanos) e Clarissas, fundou S. Francisco a chamada. Ordem Terceira, para aqueles que, não podendo abraçar a vida estritamente religiosa, desejassem seguir o ideal franciscano no século. O fim dessa Ordem Terceira é a santificação das famílias cristãs.
É óbvio que todo convento franciscano procure agregar à sua igreja uma fraternidade terciária.
Falando Jaboatão em "nossa irmão da confraternidade" (Francisco Dias Delgado), não significa. ter este pertencido à Ordem 3.ª, mas ao número dos principais benfeitores filiados à Ordem 1.ª .
Sobre a fundação da fraternidade terciária de Ipojuca, não temos dados exatos . Informa o Novo Orbe Seráfico : "Na Con­gregação de 16 de junho de 1703, se nomeou o primeiro Comis­sário dos Terceiros para esse Convento. Se antes disto haviam já ali alguns Irmãos desta Venerável Ordem, dirigidos pelos Prelados e Guardiães da casa, não temos certeza. Tomaram por titular o Glorioso S. Roque, e a sua imagem se acha colocada no altar do Sr. Santo Cristo, sem mais ato algum da sua Ordem que tomarem hábitos, professarem, fazerem eleição de ministro e mais ofícios e celebrarem a festa do seu santo titular no outro dia depois que se soleniza a do Sr. Santo Cristo, por ser esta a ocasião de maior concurso de gente no lugar".
A esta breve informação, juntamos outra, menos animadora ainda, que data do princípio do século XIX: "consta-nos que já hoje nada disto fazem (do que Jaboatão apontou acima) o que não obstante sempre se nomearam comissários". E. falando sobre a imagem do padroeiro que ainda se acha no altar do Sr. Santo Cristo diz o texto: "sem até agora, fazerem ca­pela'' (4) .
Nenhum outro documento relativo à O: 3.ª de Ipojuca chegou ao nosso
conhecimento. Apenas a imagem de S. Roque sobreviveu à Fraternidade extinta no século passado.
Por deprimentes que pareçam as parcas notícias, não po­demos considerar a O. 3.ª uma fundação malograda. Desconhe­cemos as pérolas de virtude que terão adornado a humilde e pobre fraternidade, durante o primeiro século de sua existência. Enquanto em terras brasileiras a decadência da O. 3.ª acom­panhava a dos próprios franciscanos, faziam-se ouvir no Va­ticano os apelos pontifícios em favor da Venerável Ordem reformada em 1883. Escrevia o Papa da Questão Social: "Es­tamos persuadidos de que a Ordem Terceira é o remédio mais eficaz para extirpar os males em que se debate a nossa sociedade atual e o meio mais apto para levar o mundo à verdadeira observância do Evangelho" (5). Daí a conclusão: "É nosso desejo que todas as famílias se inscrevam na O. 3.ª" e a ordem transmitida à imprensa franciscàna : "Consagrai-vos a propagar, com todas as vossas forças, a O. 3.ª, porque ela há de regenerar o mundo" , pois "assim como a O. 3.ª em tempo do seu fundador S. Francisco, reformou o mundo, assim também agora o há de regenerar".
Dando mais ênfase ao seu convite, afirma o mesmo Papa Leão XIII: "Não sem inspiração de Deus temos recomendado uma e outra vez este instituto, porque a O. 3.ª não é outra coisa senão a vida cristã bem entendida".
À vista de tantas recomendações pontifícias, não admira que o guardião de Ipojuca, frei Adalberto Kirschbaum, proce­desse à fundação de nova fraternidade terciária, a 4 de outubro de 1896. Embora o número dos irmãos fosse sempre reduzido, pode a nova fraternidade gabar-se de grandes realizações na instrução religiosa da juventude, na assistência aos pobres e doentes como na solenização do culto divino. Mais ou menos 120 irmãos chegaram a. professar, a partir de 1897.
Damos a seguir a relação dos padres comissários da O. 3.ª de Ipojuca (11)
1. 1703 Hilário da Visitação
2. 1709 Jerônimo da Graça
3. 1710 Eugênio da "Natividade
4. 1712 Manuel de St.' Antônio
5. 1714 José dos Prazeres, Pres.
6. 1718 Manuel da Piedade
7. 1719 Antônio da Glória
8. 1721 Dionísio da Madre de Deus
9. 1723 João do Pai Eterno
10. 1726 Manuel do Nascimento
11. 1727 Nicolau do Paraíso
12. 1729 Luís de São Boaventura –
13. 1730 Eugênio do Espirito Santo
14. 1732 João do Bom Jesus
15. 1733 José de Santa Joana
16. 1735 Nicolau do Paraíso
17.1739 José de Santa Joana
18. 1741 Ludovico da Purificação
19. 1742 Francisco de Santa Tereza
20. 1743 Manuel de Santo Agostinho
21. 1745 João do Bom Jesus
22. 1751 João de Santa Angela, Lente
23. 1757 Antônio da Purificação
24. 1760 Fernando de St .O Antônio
25. 1761 André de São Luís
26. 1763 Zacarias de Jesus Maria
27. 1766 Marçal da Vitória
28. 1768 Antônio da Conceicão liaria
29. 1771 llatias de Santa rrsula
30. 1772 Antônio de São Féliz
31. 1774 José de São Luís
32. 1779 Francisco Solano
33. 1785 Manuel de Santa Rita
34. 1787 Manuel da Ressurreicão Seiras
35. 1789 Manuel de Santo Antônio
36. 1793 Manuel de Santa Teresa Miranda
37. 1798 João de Santo Afonso
38. 1800 Antônio de São Félis
39. 1801 líanuel dos Querubins, G
40 1802 Manuel de Santa Rita Nunes, G
41. 1805 Boaventura da Sagrada Família
42. 1807 Caetano de Santa Engrácia
43. 1808 Joaquim da Purificação, G
44. 1810 José da Conceição Molina, G
45. 1811 Manuel de Santa Miquelina, G
46. 1814 Custódio de Santa Rosa Galvão, G
47. 1816 Boaventura da Sagrada Família
48. 1817 Manuel da Conceição de Maria, G
49. 1819 Jerônimo de S. Pedro de Alcântara, G
50. 1820 Manuel de Santa Rita (Campeio) Morais, G
51. 1824 Joaquim de Santa Escolástica, G
52. 1827 Tomás de Aquino, G
53. 1828 Francisco Xavier da Conceição
54 1829 Jerônimo do Patrocínio de São José, Pres.
55. 1831 Francisco de São José Magalhães, G
56. 1832 Jerônimo do Patrocínio de São José, G
57. 1835 Francisco de Santo Ináeio, G
58. 1838 João Batista do Espírito Santo, Pres.
59. 1841 José de Santa Maria Fonseca
60 1844 José de Santa Leoeádia Mota, G
A partir de 1844, o cargo de comissário dos Terceiros tem sido confiado ao guardião do convento, excetuando-se o período de 1860 a 1862. em que o exerceu frei José de Santa Leocádia Mota. Veja-se a relação dos padres superiores. no capítulo XXIV deste trabalho.” [5]
Demos de novo a palavra ao primeiro vigário franciscano de Ipojuca Frei Adalberto para concluirmos com otimismo o que sombriamente começamos:

O bom Deus abençoou o nosso trabalho. Quando D. Manuel, Bispo de Per­nambuco, foi a Ipojuca, em 1898, nos disse: "Agora, sim, Ipojuca é a mi­nha melhor freguesia e não me trás preocupações: " No começo, não tínha­mos confissões e comunhões. Mas depois, de um ano, eram 1.000, cada mês. As festas não ficaram mais somente em exterioridades, mas eram celebrações com muitas confissões e comunhões. Em breve tempo, tínhamos um bem numeroso Apostolado do Coração de Jesus, uma boa Pia União das Filhas de Maria, uma zelosa Conferência Vicentina, e mais ou menos 90 pessoas na Ordem 3ª. Tínhamos, por fim, 2 escolas com 170 crianças, que eram man­tidas pelo convento. Como disse bem acertadamente Frei Gregório, nós não privamos aos brasileiros de seu gosto por exterioridades, mas o unimos com o religioso, de acordo com o caráter brasileiro.[6]

Concluiindo, não conseguimos, por ora, precisar quando se extinguiu a Ordem Terceira (hoje dita Ordem Franciscana Secular) de Ipojuca, e a causa do seu desaparecimento. Crermos que há algumas décadas. Há´muito interesse da Fraternidade Franciscana da Ordem Terceira Secular da cidade do Cabo de Santo Agostinho (vziinha de Ipojuca) de restaurar a Fraternidade ipojucana. Várias reuniões foram realiizadas neste sentido, mas, não sabemos a que atribuir o isilêncio que hoje reina em torno do empreendimento.


[1] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, p. 42.
[2] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 61 a 62.

[3] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 62 a 64.

[4] Apud WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 63 a 64.
[5] Apud WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 43 A 45.

[6] Apud Arquivo da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, Provincialado Franciscano, Recife / PE.

terça-feira, 6 de julho de 2010

MÁRTIRES DE GORKUM





Luis Berrueco (activo de 1731-1750)-Mártires del Gorkum (1731)-Óleo/tela-Templo de san Francisco, Puebla.







SANTOS MÁRTIRES DE GORCUM (hOLANDA)


No dia 9 de julho a Ordem Franciscana celebra os Santos Mártires de Gorcum.
Já que criamos várias postagens sobre os Mártires da Guerra Holandesa, voltemos agora a nossa atenção para os Mártires de Gorcum, na Holanda.
Os franciscanos do Brasil, nas primeiras décadas do século XVII, guardavam indelevlmente na memória o martírio dos seus confradses de Gorcum, quando a sanha holandesa atacava o Nordeste. Muitos dos frades foram contemporâneos daqueles mártires, pois 60 anos apenas eram passados desde que se deu o cruel trucidamento de Gorcum.
Em seu livro Santos e Heróis do Povo, o Cardel Emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, registra para o dia 9 de julho:
“Agora vamos à Holanda. Aí veneramos os mártires da Eucaristia e da fidelidade ao Papa. São conhecidos sob o nome de MÁRTIRES DE GORCUM. Um, era dinamarquês; outro alemão; cinco eram belgas; doze, irlandeses. Todos excelentes padres e religiosos. A morte deles ocorreu a 9 de julho de 1572.”
O “Missal Franciscano” dedica o dia 9 de julho a São Nicolau Pick e companheiros mártires da Ordem I. Mas poderia ter acrescentado: “e da Ordem III”, como o faz a “Liturgia da Horas” próprio da Família Franciscana do Brasil, onde lemos:
“No mês de junho de 1572, os calvinistas , comumente chamados gueusos, tendo-se apoderado da cidade de Gorcum, na Holanda, prenderam os frade Menores daquele Convento e vários outros sacerdotes. Depois, andaram com eles pelas várias ruas da cidade, expondo-os à irrisão do povo. Conduziram-nos presos a Brielle, onde o Governador Lumey tentou por todos os meios levá-los a renegar a doutrina católica sobre a Eucaristia e o Primado do Romano Pontíficem na Igreja. Mas como eles persistissem com coragem, na verdadeira fé, form sujeitos a cruéis sofrimentos. Finalmente morrem enforcados, tendo seus corpos totalmente esquartejados.
A História desse martírio foi escrita por um contemporâneo.
Transcrevemos um pequeno trecho do seu relato, omitindo os outros por serem demais escrabosos e, capazes de provocar náuseas:




Extraído de Moreau, SJ, Les Saints et Saintes de Dieu. Publicado em Uncategorized às 5:07 pm por FBMV (Pesquisa Google).






“Todos, exceto quatro, foram suspensos de uma só trave oblonga. Da outra trave, entre o guardião e um irmão leigo chamado Cornélio, pendia Godofredo Duneu; o quarto, porém, Tiago [da Ordem] Premonstratense, foi suspenso de uma escada. Os carrascos executaram com muita negligência o suplício mortal, pouco se importando de que os enforcados, bem estrangulados, morressem logo. Um mordia a corda como um freio, de outro, ela passava pelo queixo, de um terceiro, pela garganta, mas não bastante apertada. Com isso, custou-lhes perder a respiração e sofreram mais tempo o último suplício, de tal modo que alguns deles, entre os quais o venerável Nicácio, com a corda na boca, respirava ainda ao clarear do dia. Estiveram a torturá-los pelo espaço de quase duas horas. Começaram pelas duas horas da madrugada e terminaram cerca das quatro.”
Recorremos de novo à Internet para colocar o leitor a par dos trágicos acontecimentos que enlutaram a Igreja, especialmente a Ordem Franciscana.
“Em 1507, os revoltados dos Países Baixos, que tinham pegado em armas, tomando o nome de Gueux, a fim de obter de Filipe II a supressão das medidas tomadas contra os herejes, tinham sido derrotados em Austruwul, perto de Antuérpia. Um certo número de vencidos se tinha refugiado nos navios; chamados Gueux do mar, eles inquietavam diversas embarcações na saída e na entrada dos portos. Eram em geral gente de má reputação que, sob o pretexto da religião, exerciam a pirataria nos mares e, em terra, as piores violências contra os católicos e sobretudo contra os religiosos e os padres. Seu chefe era Guilherme de la Marck; um historiador protestante escreveu a respeito dele: Não havia nele nem fanatismo nem falsa concepção do dever. A crueldade simplesmente, o prazer no mal, tal foi o móvel de suas ações. Expulso das águas da Inglaterra, ele soube que a cidade de Brielle, a mais importante da ilha de Voorne, na Holanda, na embocadura do rio Mosela, se encontrava praticamente desguarnecida pelos espanhóis. Ele conseguiu então conquistá-la de surpresa no dia 1° de abril de 1572, e logo em seguida começaram as habituais perseguições.
No comando de alguns navios, um de seus lugar-tenentes, Marin Brant, subiu o rio Mosela, se apossou de Dordrecht e logo se apresentou diante de Gorcum ou Gorichem. A cidade contava 5.000 mil almas; era já influenciada pela Reforma, ainda que continuasse com maioria católica, mas sem fervor. Possuía no entanto 2 Párocos, muito zelosos e piedosos, Leonardo Véchel e Nicolau Janssen, um convento de Franciscanos, cujo Guardião se chama Nicolau Pieck, padre exemplar e chefe de 18 religiosos, quase todos muito fervorosos, um cabido de Cônegos e 2 mosteiros femininos, um de Agostinhas e outro da Ordem Terceira. Quando se soube do perigo, quase todos os Cônegos e Religiosas deixaram a cidade, pondo, segundo o seu direito, suas vidas a salvo. Os outros permaneceram, esperando sustentar a coragem e animar a resistência. Mas foi inútil. Os Gueux prometeram – isto não lhes custou nada, pois eles tinham o vício do perjúrio – que iriam respeitar, e mesmo assegurar a liberdade religiosa de todos, leigos, padres ou monges; e os cidadãos, confiando nestas promessas, lhes abriram as portas da cidade. Todavia o governador, Gaspar Turk, se retirou para o castelo, onde ele recolheu todos os que, com razão, não confiavam na palavra de Brant. Estavam ali, além de alguns leigos, muito comprometidos pelo ardor de sua Fé, suas mulheres, seus filhos, os Franciscanos, salvo 3 conversos, 2 Párocos, o Capelão das Agostinhas. Jean d’Aesterwyck, um Cônego que acabará cedendo diante da morte, e um bom velhinho, Padre que tinha sofrido um acidente que lhe alterara as faculdades, mas que lhes protegeria no perigo, e que seria um dos mais valentes, Godofredo van Duynen.
Apesar da bravura e da decisão do Governador, o castelo não poderia resistir muito tempo: ele não tinha nem tropas nem as munições necessárias. Logo se tornou evidente que uma capitulação se impunha: e assim as mulheres enchiam o ar com seus gritos e súplicas; e Brant, que percebia os perigos de uma tomada de assalto e temia a chegada de um exército, reiterava suas promessas de anistia completa e geral. Então os assediados, reunidos numa sala do castelo, se confessaram, receberam a Santa Comunhão, – pois o Pe. Nicolau Janssen, muito devoto da Eucaristia, tinha salvo as Santas Espécies do Tabernáculo de sua igreja e as transportara para lá. Depois, às 2 horas da madrugada, numa sexta-feira, dia 27 de junho, abriu-se caminho para a entrada dos Gueux.



Foto da pesquisa Google



E logo se mostrou claramente a todos a maneira como Marin Brant cumpria seus juramentos. Quando seu bando entrou dentro dos muros do castelo, eles imediatamente atacaram os assediados. Ainda não queriam atentar contra a vida destes, só queriam roubar. Os assediados foram brutalmente revistados, em meio a injúrias e golpes.. Depois se fêz a lista de seus nomes. O Governador e os leigos que tiveram a reputação de ter sempre cumprido seu dever de católicos, foram separados. Gaspard Turk, sua esposa e sua filha foram enviados a Brielle; vários deles serão enforcados poucos dias depois; alguns escaparam; os outros foram presos.. Talvez Leonardo Véchel e Nicolau Pieck pudessem ser liberados; mas eles se recusam, pois querem compartilhar o destino de seus irmãos e sustentar sua coragem. Alguns deles tinham grande necessidade desta ajuda; o mêdo natural da morte e, talvez mais ainda, dos tormentos, superava a vontade de permanecerem fiéis, e os fazia ter calafrios.
Certamente eles tinham amargas razões de temer. Desde a primeira noite, no dia 27 de junho, os tormentos começaram. Para arrancar dos prisioneiros a revelação dos lugares onde eles escondiam os seus supostos tesouros, os Gueux os fizeram comparecer diante de si. Ocuparam-se primeiro de Nicolau Janssen. tiraram a corda da cintura deste Franciscano, enrolando-a no seu pescoço, depois passaram uma ponta desta corda na porta da prisão e, alternativamente puxando-a e soltando-a, levantavam e desciam o pobre Padre, até verem-lhe perto de expirar. Depois foi a vez do Padre Guardião. Depois de várias sacudidelas espantosas, a corda terminou se partindo, o supliciado caiu e permaneceu inanimado. Estava morto? Para se assegurar disto, o carrasco passou a flama de uma vela no resto. Depois passou esta mesma flama nas suas narinas, dentro da boca, aberta violentamente, queimando sua língua e o céu-da-boca. A vítima permaneceu insensível. Então ele a repeliu com um pontapé: “É somente um monge, disse, não se pedirá conta a nós de sua vida.” E todos se afastaram.
Mas o Pe. Nicolau Pieck não tinha morrido; ele recobrou os sentidos, mas sua face ficou cheia de chagas tumores sanguinolentos aé o seu último suplício, Durante 8 dias, na prisão do castelo, se renovaram cenas análogas. Os cativos sofreram ameaças, golpes, insultos e tratamentos desumanos. Enquanto isso, Marin Brant informava Guilherme de la Marck. Este último, cheio de alegria, enviou um Padre apóstata, João de Ornal, que ele tinha feito seu ministro da justiça, a fim de trazer os prisioneiros. Este último se apressou na sua tarefa, pois ele sabia que um mensageiro tinha sido enviado a Guilherme d’Orange para lhe pedir o “perdão’ para os prisioneiros. Era necessário se antecipar ao retorno deste. De fato, o príncipe enviou uma ordem de libertação. Mas la Marck recusou obediência.
No sábado, dia 5 de julho, o grupo de confessores foi levado a Brielle. A viagem, em barcas infectas, onde eles quase morreram asfixiados, foi longa, sem comida, e durou um dia inteiro. Mas foi somente na segunda-feira de manhâ que eles desembarcaram: era preciso expôr-lhes a todos os ultrajes de uma população fanatizada. E esta não deixou por menos. Logo depois La Marck os fêz comparecer diante de seu tribunal. Numa grotesca procissão, ele lhes ordenou dar a volta em torno de um instrumento de suplício, e depois de recomeçar andando para trás, e cantando a Salve Regina e o Te Deum. Se as vozes baixassem, eles as reanimavam a golpes de bastão. E enquanto eles passavam as mulheres molhavam suas vassouras na água salgada e os aspergiam gritando: Asperges me, Domine! Os prisioneiros pensavam que era a sua última hora. Mas esta só viria no dia seguinte.
Reconduzidos à prisão, aos prisioneiros de Gorcum juntaram-se 4 novos companheiros, dois Padres e dois Premonstratenses que administravam a paróquia de Mouster. Um destes, Jacques Lacops, tinha tido outrora a infelicidade de abjurar a Fé; mas, arrependido de seu crime, ele fazia uma penitência que seria coroada pelo martírio. O Pároco de Heinenoord, André Worsters, tinha levado uma vida pouco exemplar; seu confrade de Maasdam, André Bonders, tinha, ao contrário, a fama de ser um bom Padre.. E no entanto foi o primeiro que foi coroado pelo martírio: o segundo cairá de maneira vergonhosa, e não se levantará mais desta queda. Julgamentos imcompreensíveis da Sabedoria de Deus!
La Mark, mesmo sendo sanguinário, desejava mais ainda que as vítimas caíssem na apostasia. Ele mandou que elas comparecessem diante de si; tentou-as de toda a forma, provocou-lhes mesmo para uma discussão teológica, da qual Leonardo Véchel e Nicolau Pieck saíram vencedores sem dificuldade. Furioso pela sua derrota, mais furioso ainda por causa da intervenção do Conde d’Orange, La Marck deu enfim a ordem fatal.
Os condenados foram então conduzidos para um prédio dependente de um mosteiro recentemente pilhado e incendiado. Este prédio, único que tinha ficado de pé, tinha em seu interrior dois postes de diferente tamanho. Um pouco curtos para tantos condenados, mas suficientes. Os preparativos foram rapidamente feitos. Jogaram-se cordas sobre os postes, puseram uma escada , despojaram quase completamente as vítimas. Nicolau Pieck foi o primeiro a ser chamado; ele subiu, e passou por si mesmo a cabeça na corda; e enquanto sufocava, continuou a exortar seus companheiros, e sua palavra só cessou com sua vida.
Os carrascos creram então que o momento era propício para obter alguma apostasia; já na prisão um cônego e um Padre de Bonders tinham fraquejado. Os perseguidores prometeram a vida salva, pressionaram os hesitantes: mais dois cedem, o Padre Guilherme e o jovem Irmão Henrique. Os outros, aflitos com esta quedas, mais firmes até o fim, sofreram todos os suplícios. Logo 18 corpos balançavam no vazio; o décimo nono, Jacques Lacops, foi enforcado na barra mais alta da escada, pois não havia mais lugar nos postes.
No dia seguinte, cêdo, foi permitido ao povo insultar os cadáveres; fizeram-no de modo tão abundante quanto covarde. Pouco mais tarde, os carrascos retornavam. Atacaram as vítimas inertes, transpassando-as, cortando-as em pedaços. A um cortaram o nariz, a outro a lingua ou a orelha, ou outra parte do corpo e, fixando estes pedaços nos seus chapéus, nos seus cintos ou nas suas lanças, percorreram a cidade em triunfo.
Depois de meio-dia, um católico de Gorcum comprou a pêso de ouro a permissão de sepultar os mártires; mas ele não teve o direito de cumprir por si próprio este piedoso dever. Os Gueux fizeram isto: à noite, cavaram duas fossas sob os dois postes; cortaram as cordas a golpes de sabre. Os corpos dos santos mártires tombaram em desordem e foram cobertos de terra.
Mas a glória viria para eles. Desde que isto foi possível, estes corpos foram solenemente levados para Bruxelas. O Papa Clamente X beatificou os 19 mártires em 1675, e Pio IX, em 1866, os inscreveu no Catálogo dos Santos".

(Extraído de Moreau, SJ, Les Saints et Saintes de Dieu).


sexta-feira, 25 de junho de 2010

A PASSIFLORA DE IPOJUCA


Foto de Edvaldo Medeiros (Ipojuca)




Já ouviu falar da Passiflora de Ipojuca? Se é lenda ou verdade, só Deus o sabe.



Corria o ano de 1890. A 24 de junho, falecia na Bahia o último Guardião e inquilino do Convento ipojucano Frei João de Santa Teresa. Era o dia do Santo do seu nome. O trissecular Convento de Ipojuca estava fadado ao completo abandono e desmoronamento.



A Comunidade de Ipojuca se extinguira rapidamente, o mesmo tendo acontecido com outros conventos da Província Franciscana de Santo Antônio e também com os de outras Ordens religiosas. A política imperial contra a Igreja chegara ao cúmulo de proibir a entrada de noviços. Com isso, dentro de poucos anos estariam fechados todos os conventos e mosteiros do Brasil.



Corria entre os frades de Ipojuca que Deus, na sua bondade, daria um sinal àquele que devia morrer, para que bem se preparasse para a chegada da Irmã Morte. O frade que, pela manhã, encontrasse uma flor de Passiflora na seu lugar, na estala do coro onde se rezava Ofício Divino do Breviário, seria o próximo a morrer.



E assim ia morrendo um após outro, aquele que recebera a passiflora, sem que alguém o substituísse.



Aconteceu que, um belo dia, um dos frades, encontrou a Flor-da-Paixão (Passiflora ou flor do maracujá, como também se dizia) no lugar onde costumava sentar-se para a oração comunitária. Sem que ninguém o percebesse, colocou-a no lugar do seu vizinho, bem mais velho do que ele. Encontrando-a, aquele religioso levou-a ao lábios e ao coração com muita humildade. E aguardou serenamente a sua hora, já que andava sempre preparado. Daí a alguns dias entregou a sua alma em paz nas mãos d0 Criasdor. E assim aconteceu com os demais que se deparavam com a linda flor da Passiflora que vicejava no sítio do Convento. Por fim, só restava um frade: precisamente aquele que passara adiante a flor-da-paixão.



O nome desse frade? Só poderia ter sido aquele que, segundo o historiador Frei Venâncio Willeke, morrera na Bahia aos 24 de junho de 1890, Frei João de Santa Teresa, "o último, inquilino e morador do Convento de Santo Antônio de Ipojuca".



Adoecendo gravemente, não mais voltou a Ipojuca. Mas, por desabafo de consciência, ainda chegou a lançar no papel com letra já trêmula, a história que acabei de narrar. É uma suposição minha.



E como tive conhecimento dela, já que Frei Venâncio cala completamente esta história nas muitas páginas que dedicou ao Convento e aos frades de Ipojuca? Li-a num exemplar do Almanaque do Mensageiro da Fé que tive em minhas mãos há muitos anos passados e que não existe mais. Certamente era único exemplar da preciosa publicação franciscana, da falida Editora Mensageiro da Fé que tinha sua sede na Bahia.



Parece-me que o precioso manuscrito foi encontrado em sua mesa pelos que lhe prepararam o corpo para a sepultura.



E foi assim que se salvou a memória da Passiflora de Ipojuca.






Mas Deus, na sua Providência, não deixou também fechar para sempre o Convento de Santo Antônio de Ipojuca com o Santuário do Glorioso Senhor Santo Cristo: NO FINAL DO SÉCULO XIX CHEGAVAM DA ALEMANHA OS FRADES RESTAURADORES. E UMA VIDA NOVA TOMOU CONTA DE IPOJUCA.






Creio que hoje ninguém conhece essa história fora este frade que accaba de relatá-la.



E quem a escreveu mui belamente foi a colaboradora de Fr. Venâncio em seus trabalhos de história, Maria Odete, que usava o pseudônimo "Maria de Ipojuca".



Quando do meu paroquiato em Nossa Senhora do Bom Parto, em Campo Grande (Recife), visitei-a na Encruzilhada, onde morava. Tinha esperança que ela me contasse de "viva voz" a história da Passiflora de Ipojuca. Já não se lembrava de tê-la algum dia escrito e chegou a me afirmar nuna ter ouvido falar na tal Passiflora. Seria o "mal de Alzheimer" que a afetava e essa doença degenerativa a tornava incapaz de prestar-me o socorro que lhe fora pedir?



Conformei-me, mas disse-me com os meus botões: - "Não vou deixar morrer tão preciosa tradição." E aqui estou, prezado leitor, para lhe dizer que, se vier a encontrar uma Passiflora em meu lugar no coro, espero que Deus me ajude a não passá-la adiante. Mas a história não quero que se perca comigo. Passe-a adiante, sem receio.



E uma coisa tenho feito desde que aqui cheguei: deixar que não falte em nosso pomar, chamado também Santuário Ecológico Franciscano de Ipojuca, a passiflora edulis ou a mais rica em virtudes medicinais: a passiflora quadrangularis, o nosso marcujá-açu.









Frei José Milton de Azevedo Coelho, ofm.









.

terça-feira, 22 de junho de 2010

GUERRA HOLANDESA - MÁRTIRES DA PARAIBA



Maurício de Nassau
A CONQUISTA DA PARAÍBA PELOS HOLANDESES

FREI MANUEL DA PIEDADE

“Na Paraíba entraram os holandeses aos 24 de dezembro de 1634. Encontraram a cidade deserta, porque os moradores, inclusive o Governador Antônio de Albuquerque, retiraram-se por falta de meios de defesa. Acompanharam-nos os religiosos, em cuja frente estava Frei Francisco de Santo Antônio [...]. O convento passou a servir de estalagem aos holandeses; só uma vez ou outra assistiram aí alguns religiosos.”[1]
“Na Paraíba tombou o primeiro mártir desta época, Frei Manuel da Piedade, que, com todo zelo, com o crucifixo na mão, confortava os soldados que defendiam o forte de Cabedelo.” [2] Morreu na frente de combate.

TOMADA DO CONVENTO FRANCISCANO

O que diz um relatório holandês sobre a tomada do convento franciscano da Paraíba, cujo nome eles mudaram para “Frederica”. A cidade, ao ser fundada, teve o nome de Nossa Senhora das Neves, “o qual nome e título se lhe deu por causa dos incômodos que passaram, de tormentas, chuvas e ventos, até o dia em que começaram a estabelecer-se aí e a construir casas [1585].”[3] Ao tempo do Domínio Espanhol passou a ser chamada Filipéia de Nossa Senhora das Neves, por causa de Filipe, Rei da Espanha, “até que por parte de Suas Altas Potências os Srs. Estados Gerais, o Príncipe de Orange e a Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais, foi tomada pelos capitães a seu serviço no Brasil [...}, porquanto então substituiu-se a denominação que tinha pela de Frederica ou Frederikstad, em virtude do nome de Sua Alteza o Sr. Príncipe de Orange, e por deliberação de todos foi posto aí o Conselheiro político Servaes Carpentier, como Diretor das duas Capítanias da Paraíba e Rio Grande.” [4]
Relata o autor da Descrição da Capitania da Paraíba, Elias Herckmans, que em Frederika [Paraiba] havia 6 igrejas e 3 conventos, sendo o Convento de S. Francisco “o maior e o mais belo”. O dos Carmelitas não estava ainda de todo acabado, mas os frades já moravam nele. O de São Bento também ainda estava em construção; quando os neerlandeses o ocuparam faltava-lhe o telhado. Os conventos dos beneditinos e dos franciscanos foram fortificados para a defesa holandesa.[5]

FREI MANUEL DE SANTA MARIA

“No ano de 1636, os frades [franciscanos] e particularmente o guardião, Frei Manoel de Santa Maria, tendo-se metido a escrever cartas a Matias de Albuquerque, governador do rei, as quais caíram em poder dos neerlandeses, expulsou-se da terra o Guardião; e como os soldados do rei, capitaneados por Francisco Rabelo, invadiram a Capitania, os frades de São Francisco foram retirados do convento em virtude da resolução tomada pelos Conselheiros Políticos. E o convento fortificado para servir de asilo e refúgio aos mercadores neerlandeses em ocasião de necessidade.”[6]
Todos estes franciscanos certamente tiveram a mesma sorte daqueles que foram embarcados para as Ilhas de Espanha (Antilhas).
[1] MUELLER, Fr. Bonifácio, Apud Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil – Edição comemorativa do Tricentenário – 1657 – 1957”, Volume I, Provincialado Franciscano, Recife / PE, 1957, pg. 90.

[2] Id. Ibd. pg. 185 . Conf. também: Província... pg. 90 e Administração da Conquista p. 65.
[3] Da Descrição Geral da Capítania da Paraíba, de Elias Herckmans, transcrito e comentado por MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 64 e pg. 110, nota 5, para o citado ano de 1585,
[4] MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 64 – 65.
[5] Da Descrição Geral da Capítania da Paraíba, de Elias Herckmans, transcrito e comentado por MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 65 – 66.
[6] Da Descrição Geral da Capítania da Paraíba, de Elias Herckmans, transcrito e comentado por MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 65

GUERRA HOLANDESA: O MARTÍRIO SE ESTENDIA AOS MILITARES E A TODA A POPULAÇÃO

PERSEGUIÇÃO GENERALIZADA AOS CATÓLICOS
Vejamos o relato de Fr. Manoel Calado: “No tempo que veio a armada do Conde da Torre a estas costas, tendo os do Supremo dado passaportes aos Frades de Santo Antônio [franciscanos] e São Bento e do Carmo que serviram de confortar e animar a estes cativos, e por de todo os desconsolar sem respeitarem os ditos passaportes, os embarcaram dizendo que iam para as Índias [de Castela], sendo cousa certa mandá-los martirizar, lançados vivos ao mar com pedra nos pés, como fizeram aos mais dos nossos soldados prendidos do Arraial Velho, ficando alguns poucos Clérigos tão atemorizados, que por nenhuma maneira ousavam celebrar missa, nem meter-se em nenhum outro ato de Cristandade.” [1]
Note que também os soldados cristãos passaram pelo martírio.
Mas toda a população se via desprotegida da sanha dos holandeses.
Frei Calado prossegue:
Para a assolação de toda a Província [Capitania], inventaram e inovaram vária diversidade de ofícios, a saber, Escoltetos e Financeiros, que nenhum outro cargo executavam mais que argüir aos pobres moradores de tudo aquilo que lhe ditava a imaginação para condenarem para si, usando de seus poderes com os maiores insultos do mundo, até tomarem as mulheres casadas com força e violência e usarem delas por rmancebas, tendo-as e mantendo-as em suas casas, como o fez o Escolteto Alado Holl das freguesias de Ipojuca e Santo Antônio do Cabo, a uma mulher de um homem muito honrado, que tudo era patente aos do Conselho, e em nada queriam prover pelas interessadas conveniências que tinham com a maldade de seus procedimentos.” [2]
Frei Calado continua a enumerar detalhadamente os crimes que eram apadrinhados pelos Conselheiros do Recife e seus Ministros em toda a Capitania, crimes em que rivalizavam como autores “o Judaísmo e o Holandês” (Flamengos e Judeus): a exploração das dívidas dos senhores de engenho, o roubo no comércio do açúcar, privando-os daquilo a que tinham direito pelos contratos, a ponto de perderem todos os seus bens para se livrarem, em vão, das “dívidas” impagáveis... Chegou ao ponto de a Companhia das Índias Ocidentais combinar com os devedores de deixarem por conta dela a solução dos seus débitos junto aos judeus e outros mercadores; a Companhia agiu tão fraudulentamente que ficaram estes a dever mais a ela que àqueles.
Afirma Frei Calado: os Ministros Holandeses inventaram que os moradores tramavam um levante e, para impedi-lo, escolheram “o mais tirano homem [...], por nome João Blar, que com 300 soldados campeasse no sertão [Interior], aonde fez tais roubos, estupros e violências quais se não historiarão dos mais cruéis Imperadores romanos.” [3] E relata o que se passou em São Lourenço e outras freguesias: assassinato de todos os homens de uma mesma casa, defloramento de donzelas que morriam vendo os pais e irmãos mártires, debatendo-se entre a vida e a morte no próprio sangue inocente.
Acresce as profanações dos templos, os sacrilégios contra as imagens dos santos, especialmente da Santíssima Virgem.
Tudo isto provocou uma profunda dor aos luso-brasileiros. Imploraram à Mãe de Deus que ela os ajudasse a encontrar, “com armas nas mãos”, remédio e proteção contra tão grandes males.
“E assim elegemos por Governador de nossa liberdade a João Fernandes Vieira. [...] E porque [...] nos pusemos em arma com nosso Governado, [...] e nos fomos retirando de mato em mato [em guerrilha], avisando de tudo ao Governador e Capitão Geral do Brasil Antônio Teles da Silva, de quem, por sua cristandade, por seu valor e por seu sangue, esperávamos breve socorro”. [4]
[1] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, p. 296.
[2] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, pgs. 296 -297..
[3] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, p. 299.
[4] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, p. 300.

GUERRA HOLANDESDA - TESTEMUNHO DOS MÁRTIRES FRANCISCANOS



Convento de Igaraçu
Pintura do artista holandês Post





O cerco de Olinda em 1630




TESTEMUNHO DE FREI JOÃO DA CRUZ, DE FREI JUNÍPERO DE S. PAULO E MUITOS OUTROS

Bandeira da Nova Holanda

Na noite de 30 de abril de 1632, 1500 holandeses guiados por Calabar invadiram Igarassu. Era o dia dos Apóstolos S. Filipe e S. Tiago e havia missa festiva no convento franciscano. Uma mulher gritou que os holandeses estavam chegando. O celebrante consumiu logo a hóstia e as partículas consagradas enquanto os outros frades tratavam de esconder as alfaias os vasos e os objetos sagrados. O povo ainda estava na igreja quando os hereges a tomaram e levaram presos o celebrante e um frade velho que não pôde correr. Estes dois foram levados de canoa para Itamaracá foram desterrados para as Indias Espanholas (Antilhas).

O Guardião Frei Pedro da Purificação fugiu com os demais frades. O convento ficou abandonado até 1635, quando foi nomeado Guardião para um triênio, Frei Antônio de Sã Paulo. Terminada a sua gestão, sucedeu-lhe Frei João da Cruz. Foi quando aconteceu o caso das correspondências mandas por Frei João da Cruz pelo Irmão leigo Frei Junípero para Frei Cosme de São Damião e outros frades que se encontravam na Bahia “sem licença nem passaporte dos Senhores do Conselho”, como diz Fr. Bonifácio. Até à Bahia correu tudo em paz. Mas na volta, em princípios de 1639, o portador Frei Junípero foi descoberto com as respostas às cartas. Isto acarretou uma ordem de prisão para ele e seu Superior Frei João da Cruz. Provaram pelo conteúdo das respostas que a correspondência só tratava de assuntos internos da Ordem. De nada valeram as justificativas. Foram condenados à forca pelo Conselho. Mas, por intervenção de pessoas da simpatia do Conde Maurício de Nassau, a pena foi comutada em degredo. “Admira que, dois anos depois, alguém tivesse coragem de se dirigir a Nassau no intuito de conseguir a volta do mesmo Frei João da Cruz.” Não só dele, mas também de seu companheiro Frei Francisco de Santo André. A carta se conserva no arquivo de Aya, escrtita em Lisboa com data de 14 de março de 1642, assinada por M. de Montalvão. Fr. Bonifácio a transcreve. “Parece [poderia ter dito ´é certo´] que Frei João da Cruz voltou sempre ao Brasil, pois Frei Manoel Calado, que no Valeroso Lucideno se ocupa com o mesmo caso, conta no Iº Volume o fato acima narrado, e, no IIº Volume (pg. 45) conta o seguinte:“Este Frei João era Pregador e havia sido degredado com outros religiosos (que todos morreram no mar à mão dos holandeses) e ele escapou, porque foi para a Holand“O convento de Igarassu ficou deserto até a completa restauração em 1654.” Foi quando, nesse ano de 1639, o Conselho, em reação a benevolência de Nassau, deu expansão aos sentimentos anticlericais, recolhendo na ilha de Itamaracá franciscanos de todos os outros conventos e também religiosos de outras Ordens (beneditinos e carmelitas). “Teriam sido 37 ao todo, e dixaram-nos despidos e maltratados durante um mês. Em seguida todos, inclusive Frei João da Cruz e Frei Junípero, foram transportados para as ilhas da América Espanhola [ou Índia de Castela = Antilhas]. Neste trajeto alguns morreram à míngua, outros sucumbiram aos maus tratos e, dos que escaparam, poucos voltaram à Custódia.” Frei Calado conta como terminaram muitos deles: jogados ao mar com pedras atadas aos pés! Poderiam todos ser canonizados, como foram beatificados os do Rio Grande do Norte!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

VOLTANDO AO MARTÍRIO DE FREI COSME DE SÃO DAMIÃO

AINDA O TESTEMUNHO DE FREI COSME DE S. DAMIÃO




Manuscrito com letra de de Frei Cosme de S. Damião: Petição dirigida ao Governo da Província, renunciando ao direto de participar ativamente do Capítulo de 1657


(Original doArquivo do Provincialado franciscano)











(Veja escrito de Fr. Bonifácio Müller, em Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, 1657 - 1957, Provincialado Franciscano, Recife, 1957, páginas: 100 – 101):
Já postamos, ao tratar da Guerra Holandesa, a dramática retirada dos nossos, de Sirinhaém para Alagoa do Sul, chefiados Por Frei Cosme de São Damião.

Vejamos hoje a versão que da mesma nos dá o historiador M. de Oliveira Lima:

M. de Oliveira Lima diz como Matias de Albuquerque e sua gente prosseguiu a retirada para Alagoa do Sul, após destruir as fortificações de Porto Calvo:
“[...] o animoso chefe pernambucano continuou a sua sombria retirada com um punhado de soldados fatigados e descoroçoados e os incansáveis auxiliares de Camarão e Henrique Dias, ele próprio exausto de uma guerra cotidiana e que durava havia cinco anos. Na sua vanguarda, levava sete a oito mil pernambucanos que fugiam ao domínio estrangeiro, deixando propriedades, amigos, a quietação do lar e os suaves eflúvios do solo natal. Passaram todos torturas no doloroso caminhar do exílio, por entre as florestas densas, sob as chuvas torrenciais da estação, tendo que cruzar rios caudalosos; foram inúmeras as horas de fome, as horas de desalento, as horas de medo, enquanto lhes ia no encalço Artichofski com seus soldados bêbados de glória, farejando o roubo dos carros que comboiava Matias. O oficial polaco parou todavia em Peripueira, onde levantou uma fortaleza.
Entretanto os pernambucanos acoutavam-se na Alagoa do Sul esperando aí o tão falado auxílio da Espanha, que chegou afinal sob a forma de mil e setecentos soldados castelhanos e doze canhões, vindos numa esquadra que trazia a bordo o novo Governador Geral do Brasil D. Pedro da Silva. O reforço era comandado por D. Luiz de Rojas e Borja, das nobres casa ducais de Gandia e Lerma [...]. À Espanha era na verdade impossível mandar à America socorro mais numeroso.” [1]

É BOM CONHECERMOS ALAGOA DO SUL

(Da internet: pesquisa Google: Convento Franciscano de Marechal Deodoro / AL)

"Patrimônio Histórico
O Centro histórico de Marechal Deodoro começou a ser construído em 1660. Nele conservam-se resquícios da colonização portuguesa no Estado de Alagoas. São prédios de arquitetura religiosa, do estilo barroco, que dão valor cultural inestimável às ruas do município.

[...] A primeira capital de Alagoas guarda em todos os pontos uma mostra da forte religiosidade que imperava na época pelo considerável número de igrejas. Do ponto que vai desde a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, seguindo pela igreja de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Amparo, Igreja de Santa Maria Madalena até o Convento e Ordem Terceira de São Francisco, as construções estão dispostas de tal maneira, que formam uma espécie de “polígono sacro”. No século XVIII as ruas que ligavam os templos foram consideradas como as principais da cidade, e atraíam os moradores das redondezas para as grandes festas e procissões durante a Semana Santa.
É impossível entrar em Marechal Deodoro e não sair mais rico culturalmente, a magia expressa em suas construções é tão forte, que a sensação que se tem ao vê-las, é de ter voltado ao passado.
Igreja Santa Maria Madalena / Convento de São Francisco
O início da construção da igreja e convento foi em 1684, apesar de dois anos antes dessa data já terem chegado na cidade os primeiros membros da Ordem Franciscana. Em 1689 foi terminada a capela-mor, depois disso, as obras foram paralisadas durante 30 anos, e apenas em 1723, a primeira missa celebrada nesta igreja aconteceu na Semana Santa do ano de 1662. Mas sua obra só foi totalizada em 1793.
Sua fachada apresenta adereços em formas de plantas, confeccionados em pedra calcária; pardieiras emolduradas nas janelas do coro; a janela central apresenta um óculo que favorece a ventilação. A Capela-mor, concluída em 1689 tem teto em caixotões e, a Capela profunda tem retábulo, que é uma estrutura em pedra ou talha de madeira que se eleva na parte posterior de um altar. Este trabalho é único em todo Nordeste brasileiro. Sob o coro existe um painel de Santa Clara de Assis, pintado pelo artista plástico pernambucano José Eloy, em 1817.
No altar existe uma imagem de Cristo Crucificado, um exemplar da escola Jansenista, raríssimo. Em todo o Brasil, além desse de Marechal Deodoro, existe apenas mais um, na Bahia.
A imponência da construção se destacou diante da singeleza do casario circundante. A composição do conjunto arquitetônico é impressionante mesmo depois de alguns séculos, porque apesar da ação do tempo, a beleza e suntuosidade da construção impressionam.
A Igreja da Ordem 1ª de São Francisco, ou Igreja de Santa Maria Madalena apresentava internamente uma extraordinária suntuosidade. No convento o pátio interno tem ares de tempos medievais, por conta das colunas que sustentam os arcos em alvenaria com três cantos. Na parte superior do prédio funciona o Museu de Arte Sacra de Alagoas, que reúne todo o acervo religioso do município.
Igreja da Ordem Terceira de São Francisco – anexa a Igreja de Santa Maria Madalena foi construída durante o século XVIII, possui fachada de estilo Rococó. Uma porta única, feita em folha almofada, dá acesso ao templo que tem mais três janelas de adorno.
Igreja do Senhor do Bonfim."

UM POUCO DA HISTÓRIA

"Os primeiros relatos de povoação em Marechal Deodoro [nome da cidade hoje] datam de 1522, com a expedição de Cristóvão Jackes enviada por D. João III e, posteriormente, em 1535, com a expedição de Duarte Coelho. Contudo, somente em 1591 é que foi registrada a primeira doação da sesmaria. Marechal Deodoro surgiu em 1611 como Vila Madalena. Depois, teve o nome de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul e mais tarde, simplesmente, Alagoas, antiga capital da Província. Em 1663, o povoado foi atacado pelos holandeses que torturaram parte da população e incendiaram cerca de 100 casas. Na luta contra os invasores, Alagoas abrigou Matias de Albuquerque com 10 mil fugitivos e Felipe Camarão, com outros 4 mil. Em 12 de abril de 1636, foi elevada à categoria de vila, e no ano de 1706, foi elevada à comarca. Posteriormente, em 16 de setembro de 1817, foi elevada à categoria de capitania e desmembrando-se da capitania de Pernambuco, foi elevada à categoria de sede da nova capitania da qual foi o seu primeiro governador Sebastião Francisco de Mello Póvoas, passando à categoria de cidade pela lei de 8 de março de1823. Em 1838, Agostinho da Silva Neves assumiu a presidência e decidiu mudar a Tesouraria da Fazenda de Marechal Deodoro para Maceió. A decisão provocou polêmica, obrigando Silva Neves a de Pernambuco e da Bahia para garantir a ordem pública . Em 9 de renunciar. O presidente deposto seguiu para Maceió e solicitou tropas e em 9 de dezembro de 1839 foi sancionada pela Assembléia Legislativa lei, transferindo a metrópole de Alagoas para Maceió. "

VOLTANDO À GUERRA HOLANDESA

“Afinal, aos 2 de agosto de 1635, entraram na povoação de Alagoa do Sul ( chamada também, em 1656, Vila de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, hoje Marechal Deodoro.
“Logo o Pe. Custódio tratou de levantar um recolhimento de palha e ramagens, onde passou alguns meses com seu secretário Frei João Batista e mais alguns poucos, ao passo que os outros seguiram viagem em direção dos conventos nas partes da Bahia, visto que o lugar não comportava muitos relgiosos, já por falta de agasalho, já por falta de sustento.
Em fins de dezembro do mesmo ano de 1635 veio alojar-se na mesma localidade o General espanhol D. Luiz de Roxas com o socorro esperado de Castela e Portugal.
Resolveu o General marchar para as partes de Pernambuco no dia 6 de janeiro de 1636, em companhia do Pe. Custódio, seu secretário Frei João Batista e mais outro, Frei Manuel das Neves. Em 15 de janeiro chegaram ao Porto Calvo, onde esperavam encontrar-se com o inimigo. Não encontrando o holandês neste lugar, foram adiante. Dois dias depois apareceu o exército holandês com 1.500 soldados. O que o Pe. Custódio havia previsto e predito, aconteceu: o General Luís de Roxas foi atingido por uma bala nas costas, e caiu do cavalo, morto. Os nossos foram vencidos, e feitos prisioneiros o Pe. Custódio com os dois companheiros.” [2]
[1] LIMA, M. de Oliveira, Pernambuco - seu desenvolvimento histórico, 2ª Edição, Governo de Pernaambuco,Recife, 1975, pg. 78.
[2] MUELLER, Frei Bonifácio – ofm, apud Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, edição comemorativa do Tricentenário da criação da Província, edição do Provincialado Franciscano, Recife / PE, 1957, pp. 100 – 101.




Igreja do Convento Franciscanao de Santa Maria Madalena em Lagoa do Sul, hoje a Cidade de Marechal Deodoro / Al



Após levantar aí um Recolhimento de palha e ramagens (tipo mocambo), o Padre Custódio Frei Cosme de São Damião, seu secretário Frei João Batista e mais uns poucos passaram alguns meses nesta localidade. Os outros frades seguiram para as partes da Bahia. Em Alagoa do Sul não havia condições de permanecerem por mais tempo, por falta de acomodações e alimento. Quando em fins de dezembro de 1635, chegou à mesma localidade o General espanhol D. Luís de Roxas, com o esperado socorro de Castela e Portugal, decidiu o General marchar para Pernambuco (Recife) com o Padre Custódio, Frei João Batista e Frei Manoel das Neves. Partiram a 06 de janeiro de 1636, chegando a 15 de janeiro em Porto Calvo, onde esperavam combater o inimigo. Mas, o que Frei Cosme de São Damião havia predito aconteceu: o General Luís de Rochas foi morto pelos holandeses e os frades feitos prisioneiros.
Frei Cosme de São Damião foi preso, não podendo realizar seu desejo de visitar três Casas da Ordem que estavam situadas em regiões tomadas pelo inimigo: a da Paraíba, a de Igaraçu e a de Ipojuca ( Conf. Fr Jaboatão,m II, P. 184).
Relata Fr. Bonifácio (obra citada, página 101 – 102):
“Cabeça dos demais, o Padre Custódio devia ser julgado no Recife. No Conselho alguns votaram pela forca; algum outro, porém, lembrava o degredo para Serra Leoa na África, onde a morte seria mais certa que a vida. Este foi o parecer que prevaleceu, e achou aprovação do Supremo Conselho do Altíssimo. Mas com tal resolução começou a odisséia do Padre Custódio. Partiu uma nau de pilhagem com o padre a bordo. Mas não houve meio de atracar na Serra Leoa, nem em qualquer outra parte da África. Quase 6 meses a nau esteve balançando, à mercê das correntes e dos ventos contrários. Sobreveio o temido mal da costa, chamado de “Loanda”, atacando boca e gengiva dos navegantes. Não quis perder o Servo de Deus tão boa ocasião de praticar a caridade, servindo-lhes de enfermeiro, aplicando-lhes o remédio com suas mãos. Com isso, os próprios hereges reconheciam na pessoa do frade um amigo; sobretudo o Capitão ficou comovido, a ponto de repartir com ele sua mesa. Convencidos de que naquelas plagas o mal não curava de vez, e que os mantimentos iam-se ultimando, após 7 meses de ausência, resolveram voltar a Pernambuco.
De volta, no Recife, relataram aos do Governo tudo que havia acontecido na viagem, de modo especial a caridosa conduta do degredado Frei Cosme. Este foi chamado à presença do Conselho que lhe declarou que davam a sentença por cumprida e que, em breve, seria restituído a seus confrades. De fato, certo dia foi desembarcado na praia de Itapoá, 5 léguas distante da cidade da Bahia. (Dizem as Memórias [Diárias do Donatário Duarte de Albuqurque Coelho] em Ilhéus, o que parece engano).”
Pensam uns que o Pe. Custódio chegou à Bahia em fins de 1636; um atestado da Câmara Eclesiástica, com data de 3 de janeiro de 1637, vem justifica tal conjetura.
Podemos imaginar a surpresa geral que causou o aparecimento do padre na comunidade; parecia um morto ressuscitado. Seu substituto, Frei Manuel Batista de Óbidos, eleito na sua longa ausência, logo se prontificou a entregar o cargo a quem, por direito, pertencia. Coagido pelas circunstâncias do tempo, [Frei Cosme) reassumiu o governo da Custódia até 1639.
Antes do Capítulo de 1657 [ano da elevação da Custódia a Província] , [Frei Cosme] lavrou um Memorandum aos eleitores que bem caracteriza esse homem benemérito.”
O tal Memorandum já foi objeto de postagem em nosso Blog (“De Frei Cosme de São Damião, um manuscrito inédito” a 24 de maio de 2010)
Pediu para que o Governo da Província o dispensasse de participar ativamente do Capítulo no qual, por direito poderia votar e ser votado, em vista de sua quase invalidez, devido (sabemos nós) ao martírio pelo qual tinha passado.
A autenticidade deste documernto foi reconhecida, em 15 de outubro de 1660 pelos confrades que viram nele uma peça importante para o seu processo de canonização que deveria ser aberto. É o que concluímos pelo que escreve Frei Jaboatão, quando trata dos milagres atribuídos ao Servo de Deus Frei Cosme de São Damião. Segundo Frei Jaboatão, o processo de beatificação de Fr. Cosme foi aberto na Bahia aos 8 de julho de 1670 (Novo Orbe Seráfico, Parte II. Páginas 206 – 230). Confira o que sobre isto postamos a 24 de maio de 210.

Frei Cosme de São Damião ainda chegou a assinar as atas do Capítulo de 1657.

Veio a falecer dois anos depois, em odor de santidade a 1 de novembro de 1659.

A Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil que a ele tanto deve, não poderia levar adiante a causa de sua canonização?

E o que fazer com a de tantos outros que lavaram com o seu sangue as terras do NE brasileiro?
EM TEMPO:

Frei Jaboatão conservou umas notas deixadas por Fr. Manoel das Neves, que relatam:
“Algumas vezes assisti no Arraial de Pernambuco, estando em guerra viva entre os soldados. Depois disto, vindo com o Padre Custódio Frei Cosme de São Damião e seu secretário Frei João Batista para as partes donde assistia nossa infantaria, nos tomaram os holandeses na campanha, tratando-nos com grandes rigores, despindo-nos e ameaçando-nos de morte; perto de um mês com soldados de guarda noite e dia; depois foram enviados às fortalezas de Pernambuco, onde ficamos uns dias, padecendo fome e sede; dividiram-nos, cada qual em outro vaso de guerra, onde passamos presos 7 meses. Afinal fomos enviados para os Estados da Holanda para nos sentenciaram; para nos livrar, e voltar a Portugal, foi serviço”.

GUERRA HOLANDESA - OS FRANCISCANOS

MÁRTIRES FRANCISCANOS NA INVASÃO HOLANDESA
RELATÓRIO DE MATIAS DE ALBUQUERQUE

O historiador Fernando Pio, em seu livro O Convento de Santo Antônio do Recife e as fundações franciscanas em Pernambuco, escreve sobre os franciscanos na Invasão Holandesa:
Em 1630, quando da Invasão Holandesa em Pernambuco, era Custódio do Brasil, vivendo no Convento de Olinda, Frei Antônio dos Anjos. Desembarcado o inimigo em Pau Amarelo, Fr. Antônio dos Anjos, à frente de sua falange de religiosos, abandona o Convento de Olinda, para acompanhar o exército em combate. Não foge ao perigo, encontrando-se sempre onde a batalha se feria mais acesa. Tão grandes foram seus serviços, que o General Matias de Albuquerque, Comandante em Chefe das forças pernambucanas, em documento firmado aos 20 de agosto de 1635, narra, nas seguintes palavras, a dedicação e heroísmo desses soldados da milícia de Cristo:
Certifico que vindo no mês de fevereiro de 1630 sobre o porto e Villa desta Capitania de Pernambuco uma mui poderosa armada holandesa, O Padre Custódio de São Francisco que era então Fr. Antonio dos Anjos, com muitos religiosos de sua ordem, acudiram à praia, às trincheiras, e aos baluartes, a confessar e animar os soldados e a gente da terra, para que sustentassem as ditas trincheiras e baluartes, onde assistiram até de todo serem rendidas.
E vindo nós para o Recife, vieram também os religiosos da dita Ordem, alguns dos quais foram assistir no Forte do Mar a confessar, e, no de terra, (S. Jorge), fizeram o mesmo offício até de todo serem rendidos; e fazendo eu arrayal no sítio de Parnamirim para nelle formar uma fortificação, como formei, em que me defendesse do inimigo, os ditos religiosos se retiraram e, dentro do forte, fizeram um oratório, no qual sempre assistiram de seis religiosos para cima, dizendo missa no dito oratório e administrando os sacramentos da Confissão e Sagrada Comunhão, e fazendo sermão quando era necessário, com muita pontualidade; e três annos contínuos os ditos religiosos foram dizer missa às estâncias dos Afogados e Salinas e todas as mais, e nellas administrando os sobreditos sacramentos com a mesma pontualidade e diligência; e em todos os rebates e assaltos que tivemos com os inimigos, se acharam presentes os ditos religiosos, em companhia de nossos soldados, animando aos sãos e confessando os feridos com mui grandes trabalhos e riscos, e assistiram no seu oratorio e no arrayal, prestando os mesmos officios até o dia 9 de junho de 1635 em que se rendeu o dito arrayal!
( Fernanfo Pio, obra citada, páginas 16 a 17).
Observa Frei Bonifácio Müller, que transcreve o mesmo documento numa versão quase idêntica, tratar-se de uma “referência sumária” da certidão que se encontra na íntegra no Novo Orbe Seráfico de Frei Jaboatão (P. I, 2, p. 97 m- m100). Veja em Província Franciscana de Santo Antônio do Brsasil 1657 – 1957, Provincialado Franciscano, Recife, PE, Volume I, p. 91, nota 12.