segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A IGREJA DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA

Igreja de Nossa Senhora das Neves de Olinda
Azulejos da Anunciação














 Frei Matias Teves, ex-catedrático da Escola de Belas Artes de Pernambuco, deixou-nos algumas páginas de grande valor sobre a história da Provincia Franciscana de Santo Antônio do Brasil.

IGREJA DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA





 Sobre a igreja do Convento Franciscano de Olinda (então Convento de Nossa Senhora das Neves), escreve em síntese admirável:














COMO OS HALANDESES VIAM O CONVENO FRANCISCANO DE OLINDA:
GRAVURA MARIN  D´ÓLINDA

“ Entrando nela, tem-se logo a impressão de um ambiente sagrado e formoso. Toda ornada de painéis de mestres cujos nomes continuam ignorados, vêm-se as paredes cobertas até altura de uns três metros de ricos azulejos, apresentando em quadros sucessivos cenas da vida de N. Senhora. O mesmo acontece nos painéis de cores que no teto, enfaixados em ricas molduras, descrevem as glórias de Maria Santíssima. Muito bem lavrados são os altares, esculpidos e dourados onde chamam a atenção do visitante antigas e belíssimas imagens esculpidas em madeira, destacando-se a do orago N. Sra. Das Neves e a de São Francisco no Altar-mor, assim como a de N. Sra. Da Conceição, respectivamente a de S. Antônio, nos altares laterais. É interessante ainda uma pintura na igreja do Convento [igreja N. Sra. Das Neves], no plafond por baixo do coro dos religiosos, célebre painel em estilo arquitetônico, com admirável estudo de perspectiva, O conjunto é evocativo e piedoso."

CLAUSTRO DO CONVENTO S. FRANCISCO DE OLINDA


















JOVENS FRADES NA CISTERNA DO CONVENTO
AO PÉ DO RELÓGIO DE SOL

sábado, 3 de novembro de 2012

A CAPELA CAPITULAR DO CONVENTO DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA
Na década de 30 Frei Matias Teves voltava a Olinda como Professor de Filosofia. Possivelmete dessa época são os seus escritos sobre o Convento de Olinda: história, arquitetura, pinturas, azulejos...
Desta vez, vamos transmitir o que ele nos legou sobre a “Capela Capitular” ou, como é mais conhecida, a “Capela do Capítulo”.
É uma pequena capela, único resto do primitivo Convento. Com azulejps de duas cores com desenhos geométricos; no fundo, entre duas janelas, destaca-se o altar de Nossa Senhora, ladeada de São Francisco e de santo Antônio. As obras de talha, em parte estragadas, em parte renovadas no mesmo estilo, revelam o desejo dos religiosos de zelar as obras antigas e, por outro lado, a falta de recursos, porque  “a verba solicitada por Frei Matias” (destaque nosso) há poucos anos, e obtida do Governo, não era suficiente para levar a termo o trabalhão iniciado de restauração.
Dignos de nota são ainda os painéis do teto, assim como a lápide de mármore em frente ao altar que, desde o ano de 1656 tem guardado os restos mortais do patrono da Capela: Capitão Francisco do Rego Barros e de sua esposa Dona Arcanja da Silveira. Além dos dizeres alusivos, o epitáfio ostenta em relevo o seu brasão d´darmas.
Até aqui o que devemos a Frei Matias Teves. Na mesma década de trinta, como catedrático da Escola de Belas Artes de Pernambuco (ele foi um dos fundadores) recebeu muitas veze o encargo de pedir auxílio financeiro ao Presidente Getúlio Vargas, para não ver a Escola fechar as portas. Em 1940 vai pessoalmente ao Rio para angariar recursos da Presidência para a  Escola de BelasArtes. Estava, pois tarimbado para conseguir verba para o seu querido Convento de Olinda.
 Aqui, gostaríamos de emitir uma opinião sobre o costume de adotar patronos para as obras de arte dos Conventos.
Os religiosos não contavam com meios financeiros para a coservação do patrimônio artístico. Recorriam a benfeitores ricos que patrocinavam um altar ou uma capela, como legado, obtendo o direito de sepultura com lápide, recebendo, os benefícios espirituais garantidos pelo Direito da Igreja e da Ordem.
Muitas vezes, porém, os herdeiros não cumpriam suas obrigações, caindo muitos legados no esquecimento.
Temos o exemplo de Ipojuca: o benfeitor Francisco Dias Delgado (doador do terreno para Não seria a imagem primitiva de Nossa Senhora das Neves? Veja que tem a cabeças descoberta com os cabelos grandes, os traços indígenas são evidentes. Pelo estilo, deve remontar ao século XVI. Consta que a a imagm primitiva foi obra dos índios que aqui tinham o seu seminário (colégio) e a veneravam com cantos e músicas (procure isto em Frei Jaboatão). 
a construção do Convento) e sua Esposa D. Catarina Moreno fizeram doação ao Convento de Ipojuca de muitas léguas de terra, com gado vacum, em Porto de Galinhas e Oiteiro de Maracaípe para manutenção do Convento, especialmente da sustentação do culto à imagem milagrosa do Senhor Santo Cristo. Os herdeiros se negaram a realizar a vontade dos doadores e os frades perderam tudo.







Até o terreno do Convento extramuros foi roubado pelo dono de um Engenho vizinho que mudou a posição dos marcos e nunca devolveu a escritura que um Guardião ingenuamente lhe confiara, acreditando que iria servir para confirmar os limites, sobre os quais haveria a dúvidas.
Se o Convento ainda fosse possuidor dessas terras, hoje poderia reparti-las do com os pobres como gostaria de fazê-lo.
Frei Fulgêncio (soube isto de um grande amigo dele advogado), vigário de mão cheia em Ipojuca na década de 50, conseguiu boa soma de dinheiro na Alemnha, para a construção de casa para os pobres de Ipoojuca. Não chegou a levantar uma única casa. A razão: o usineiro da Usina Salgado que também era Prefeito, não cedeu um palmo de terra para o projeto do Vigário. O dinheiro foi devolvido aos doadores.
Nossa Senhora do Oiteiro passou ao Patrimônio Diocesano.
Já os Currais de São Miguel, foi doação feita ao Patrimônio do Padroeiro da Paróquia e ainda hoje rende em benefício  da Paróquia de Nossa Senhora do Ó (!), embora sua administração tenha sido confiada ao Vigário de Ipojuca.
Voltando à Capela do Capílulo, e pensando em outras riquezas arquitetônicas do Convento, poderíamos perguntar de onde vinha tanto dinheiro para essas obras que hoje admiramos.
Quem nos vai responder é a escritora Sylvia Tigre de Hollanda Cavalcanti, no livro, fruto de sua pesquisa e texto:  O Azulejo na Arquitetura Religiosa de Pernambuco - Séculos XVII e XVIII (São Paulo, 2006, Metalivros), quando, à página 16, escreve: “O grande repertório do acervo de azulejos é o Nordeste, com destaque para Pernambuco e Bahia. Dora Alcântara associa os círculos econômicos nordestino à profusão dos nossos azulejos, A região era mesmo próspera e rica nos séculos em que a arte se propagou” (pg. 16).
Mas, não se pode explicar tudo pela riqueza de Pernambuco e Bahia. Dora Alcântara, acrescenta ainda três fatores: o social, o político e o geográfico.
Os templos pernambucanos são beneficiados pelo fator social: o surto de ufanismo, a renovação do sentimento religioso católico. Mas não batava isso: a riqueza advinda da cana de açúcar e o propósito dos senhores de engenho de manter sempre boas relações o com a Igreja Católica “de marcante presença na sociedade daquela época foi fundamental para o recebimento pelas Ordens religiosas, de grandes doações financeiras, heranças em testamento etc. Os recursos se refletiam no embelezamento dos templos religiosos como o ouro que tanto enriquece as talhas da igrejas e capelas, na imaginária e nas pinturas e, claro, Também na azulejaria” (p. 17).
Já na Bahia predominou o fator político. Capital da Colônia desde 1763, esteve em liderança durante todo o período de expansão da arte de azulejaria. Claro que isto beneficia sobejamente os patrimônios históricos e artísticos baianos, em quantidade e qualidade, opina Dora Alcântara.




sexta-feira, 2 de novembro de 2012

“CARTA DE MAREAR” E “LAMENTAÇÃO


DE FREI ANTÔNIO DO ROSÁRIO

“As AVES, diz Santo Agostinho, proferem vozes que parecem humanas”.

Umas aprendem a falar; outras, sem as ensinarem, falam, como são os pássaros que nesta terra [de Ipojuca] cantam, dizendo clara e distintamente:

- Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Outros dizem:

-Já é dia! Já é dia!

E outros:

- Triste dia! Triste Dia!



Mas de todas as aves músicas que voam e cantam por este emisfério, o Sabiá da Praia é o Mestre da Capela pelo muito que arremeda o Melro e Rouxinol de Portugal.

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Mas o Sabiá da Praia, como anacoreta ou eremita mais retirado do mundo, nas solidões e desamparo das praias, nas inclemências e rigores do tempo, passa a vida cantando e chorando.

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Se a nossa alma, diz o mesmo David, é como pássaro tirado do laço; se arrependida e agradecida quiser cantar, ou para melhor dizer, chorar, suspirar e lamentar (que é para Deus o melhor cantar), faça-se Sabiá da Praia. No suave e enternecido canto desta retirada Ave, lamente, chore, clame à Divina Misericórdia, que gosta muito dessa música.

E se o Seráfico São Boaventura Doutor faz da alma devota filomela, um Sabiá da Praia, que é o rouxinol do Brasil, por que não fará a figura de uma alma penitente, por nos não tirarmos de Ave?

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Eu me contentara já que meus olhos fossem rios, mas daqueles que levantam vozes a Deus em favor dos pecadores. Estes rios, pelo que devo e espero da Virgem do Rosário, que hão de entrar e sair por aquele mar que se compõem de quinze mistérios, como de quinze rios.

Por isto convocarei Quinze Rios dos mais celebrados na terra em que habito [Pernambuco], para que, saindo pelos meus olhos, façam um mar que possa desfazer os altíssimos muros de areias e pecados, que são mais que as areias do mar.

Não pago com chorar sobre os rios da terra; é-me necessário chorar os rios da terra em lágrimas:

BEBERIBE.

CAPIBARIBE.

AFOGADOS.

JANGADA.

ALGODOAIS.

POIUCA.

SERINHAÉM.

RIO FERMOSO.

UNA.

TATUAMUNHA.

CAMARAJIBE.

S. ANTÔNIO GRANDE.

S. ANTÔNIO MIRIM.

RIO DE S. MIGUEL.

RIO DE S. FRANCISCO.
 

                                                                RIO TATUAMUNHA - Santuário do peixe- boi.
                                                                   Encontro com o mar em Porto de Pedras / AL


Rios sagrados, Rios misteriosos, por me representares os Quinze Rios do Mar do Rosário. Rios da terra que o Céu ameaça com os ais do Apocalipse. Rios fermosos, Rios caudalosos, correi, correi pelos meus olhos. O vosso correr seja o meu chorar. O vosso murmurar, o meu gemer e suspirtar.

Correi pelos meus olhos para o Mar do Rosário!

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Aplaquem-se os raios do Céu com as contrições da terra!

Se Ezequiel vos não pode obrigar a desistir do castigo das Relíquias de Israel, Joel vos obrigará a que perdoeis o povo de Pernambuco, só por uma razão: porque é vosso povo. Pedoai ao vosso povo!”


O CONVENTO SANTO ANTÔNIO DE IPOJUCA


ACOLHEU FREI ANTÔNIO DO ROSÁRIO

 






AJUDANDO A ENTENDER


Maria do Carmo Tavares de Miranda tem alguma coisa a nos comunicar para melhor aproveitarmos os excertos que transcrevemos de Frei Antônio do Rosário, concebidos na solidão sonora do Convento de Ipojuca, próximo às matas e ao mar.

“Cremos que nada fala melhor sobre o Franciscanismo e seu amor efetivo a Deus, e, em Deus, à terra e ao povo...

É a Lamentação de um Cristão, arrependido no suave canto do Sabiá da praia, rouxinol ou melro do Brasil.

Esta Lamentação é o terceiro ensaio da obra Carta de Marear da autoria de frei Antônio do Rosário, composto à sobra do Convento de Ipojuca, e publicado em Lisboa em 1698.

Se a Carta de Marear diz o viver do homem cristão, como o do homem do mar, viandante e em perigos, atento e precavido para todos os embates com que se defronta, e é apenas uma cartilha de oração mental, a Lamentação é o murmúrio do frade, em encantos pela terra, deslumbrado por ela e amante a chorar e gemer com o irmão Sabiá a tomar sobre si as culpas e pecados do povo, doando-se a Deus, clamando Seu Amor, ele que terreno, é desta terra e deste povo, e eles são de Deus. E a Virgem Mãe de Misericórdia é a advogada”.

                                               IPOJUCA - CLAUSTRO COM PARREIRA


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A HORTA DO CONVENTO FRANCISCANO DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA NOS FINS DO SÉCULO XVI
Vamos primeiro aos Anais da Bibl. Nasc. Vol XXIV (1902) pg. 301-310:
“ No Capítulo XVI das “Glórias de Pernambuco” em que D. Domingos de Loreto Couto trata dos religiosos naturais de Pernambuco que na Ordem Seráfica floresceram em virtude e doutrina, lemos este preâmbulo:
Horto chamou a Ordem Seráfica o Sumo Pontífice  Nicolau III, e com muita propriedade, porque nos hortos,  à  diferença dos campos,  em todas as estações do ano, nascem novas plantas e se produzem novos frutos, e a Ordem Seráfica desde sua fundação, em todos os tempos, está dando novas plantas para delícia da devoção e exemplo das virtudes.
Esta maravilhosa fecundidade se admirou sempre no célebre Convento de Nossa Senhora das Neves da Cidade de Olinda, terreno feliz, que tem dado à Religião  maravilhosos frutos em religiosos que, com suas virtudes, edificaram não somente esta cidade e Província de Pernambuco, mas todas as partes de nosso Brasil (detaque nosso).
Com a palavra agora  o historiador José Antônio Gonçalves de Mello em sua obra Diario de Pernambuco: Arte e Natureza no 2º Reinado (Recife – Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 1985, p. 205):
“O Convento Franciscano de Nossa Senhora das Neves, de Olinda, teve também a sua boa horta, a cujo trato se ofereceu  Frei Pedro de Mealhada, mais cohecido como Frei Pedrinho, nos fins do século XVI, o qual dedicou seu trabalho ao jardim e à horta do Convento, ´plantando flores e hortaliças´.[i] 
Outro Franciscano, Frei Antônio do Rosário, (1647-1704), autor de livro intitulado Frutas do Brasil numa nova e ascética monarquia (1702), mandado imprimir em Lisboa às custas de um ´mascate´ do Recife, relaciona 36 árvores de fruto aqui cultivadas, várias das quais exóticas, mas perfeitamente aclimatadas. Com esse livro a flora brasileira, sobretudo a do Nordeste, entra na literatura alegórica de intenção religiosa” (grifo nosso).

 
                                              Berinjela à mostra

                                                                                                                                                
 FLOR DE BAUNILHA




                                                                                                                                                      FRUTOS DE BAUNILHA

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Na década de 1990, no Convento de Olinda, os frades cultivam verduras e plantas medicinais. Tinham um laboratório fitoterápico muito procurado sobretudo pelas camadas menos favorecidas de Olinda. Não são poucos os que ainda hoje (ricos, remediados e pobres)  agradecem terem ficado bons de seus males graças áqueles medicamentos naturais.
    
Plantavam berinjelas, nabo, alface, rúcula, cenoura, beterraba, tomates, açafrão de batata (gengibre-doce), mostarda, coentro, acelga, gengibre, feijão guandu, chicória...
Entre as plantas medicinais merecem destaque: o chapéu-de-couro (echinodorus macrophillus;  chá mineiro), cana-do-brejo, losna, agrião-do-pará (jambu), maracujá-açu, alfavaca, sambacaitá (sambacuité ou alfazema brava), erva macaé, beladona, baunilha... 
Cultivavam minhocas para garantir o adubo; plantavam gergelim para afastar as formigas (as folhas do gergilim levadas por elas não permitiam a formação do mofo de que se alimentam e , assim, as obrigavam a procurar outras paragens).



Falamos acima em Frei Antônio do Rosário. Gostaríamos de transcrever um trecho de um escrito dele maravilhoso tanto pelo conteúdo místico, como pela poesia da  linguagem.
Mas antes o que sobre ele escreve a Professora Maria do Carmo Tavares de Miranda:
“Frei Antônio do Rosário é português, natural de Lisboa. Primeiramente tomou o hábito de agostiniano descalço no Convento do Monte Olivete, tendo então sido Lente de Filosofia, Pregador e Visitador Geral de sua Ordem. Posteriormente torno-se sacerdote secular e missionário e assim é que o vemos, inicialmente, no Brasil. Ingressa após , em 1686, na Ordem dos Frades Menores, onde professa durante a gestão de Frei Domingos Archangelo, ‘Provincial intruso das partes de Pernambuco’, como diz Jaboatão, e esta a razão pela qual deveu ratificar os votos a 2 de junho de 1689, no Convento de Olinda. Homem de virtuso saber, é apóstolo zeloso para o pastoreio das almas, e renomado missionário volante. Tem como fim conduzir o homem nos caminhos de Deus e reconquistar para o aprisco divino as ovelhas desgarradas. É Autor de várias obras, muitas escritas ainda em Lisboa, e como agostiniano descalço, e outras já no Brasil e como franciscano, convindo que destaquemos entre estas também o livro Frutas do Brasil, em uma nova e ascética Monarquia, publicada em três edições: 1702, 1828 e 1830. Faleceu a 8 de setembro de 1704, no Convento da Bahia.
Na sobriedade  e austeridade do Convento de Ipojuca, realçando a beleza arquitetônica e o estilo próprio do franciacano que intui a paisagem para dar a forma de vida aos seus conventos e igrejas, Frei Antônio do Rosário é o suave poeta que deixa transparecer o pregador e missionário,  cantor e profeta, que suplica, implora, aponta ameaças e castigos; é terno e apocalítico ao mesmo tempo.
Lamentação  que termina em Ato de Contrição: os seus pecados a chorar são prantos por amor à terra e ao povo, é pedido de clemência ao Deus e Senhor a quem crê, espera e ama.
É o franciscano que formou o Brasil: nada tendo, dando-se totalmente, assumindo a terra e o povo, amando, não só pela admiração de uma beleza ou de um pitoresco, mas amando até o fazer-se da terra e do povo, carregando consigo as culpas e os pecados, como pai que aos filhos repreende, ama e se doa, e, repetindo com Francisco de Assis, em Cantos e Louvores, a alegria e amor a cada coisa, e o amor de Deus em tudo, até ao “é morrendo que se vive para a vida eterna” .
 (Maria do Carmo Tavares de Miranda: Os Franciscanos e a Formação do Brasil, Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1969, pgs. 281-282).
Na próxima postagem, transcreveremos de Frei Antônio do Rosário o escrito poético e místico de falamos.



[i]  JABOATÃO, Frei Antônio de Santa Maria, Novo Orbe Seráfico Brasílico 5 vols, (Rio de janeiro 1858 -1862) II p. 317.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

OS QUILOMBOLAS DE BEZERROS
APIPUCOS DE BEZERROS 

Para começo de conversa, vamos começar por Apipucos do Recife:


PESQUISA GOOGLE; APIPUCOS, SIGNIFICADO DO NOME

Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco:

“Apipucos ou Apopucos como se escrevia antigamente é um nome de origem tupi (Apé-Puc), que significa caminho longo, para alguns, caminho que se divide, encruzilhada ou onde os caminhos se encontram, para outros.
Segundo o cronista Pereira da Costa o nome Apipucos aparece em um mapa do período colonial de Pernambuco, assinalando um encontro de dois caminhos que se conjugavam.
Foi exatamente numa encruzilhada em forma de Y - configuração urbana que se conserva até hoje - onde nasceu o povoado.”
ISTO O QUE NOS DIZ A INTERNET.

Em Bezerros, existe o bairro APIPUCOS. Primitivamente, conforme a tradição, era chamado de várias maneiras:
- Quicuca: Assim lemos no termo do Batismo de 12 de setembro de 1819, quando aconteceu o batismo de José, “filho legitimo de Miguel Antonio da Silva e Francisca Thereza, “moradores no Quicuca”. Assim consta no Livro de Batismo do  Arquivo Paroquial de Bezerros, Nº 10 (1817 – 1824), 1º Termo, Fls. 5 V.
- No Livro de Óbitos de 1856, aparecem as vitimo do Bezerros cólera “no Quiquiculo” (lugar, sítio?), relacionadas pelo Franciscano Menor, Vigário Encomendado, Frei Lourenço da Imaculada Conceição e Silva,  Missionário de Aricobé, o mesmo que lançou o óbito do Vigário Manoel Clemente Torres Galindo, que morreu do cólera, a 18 de fevereiro de 1856 (Livro de Óbitos da Matriz de São José dos Bezerros,  Nº 11 (1856 – 1862), 1º lançamento, Fl 1) .
- Qicuco: Minha saudosa Mãe dizia que sempre ouviu dizer que Apipucos de Bezerros antigamente se chamava Quicuco e que seria uma palavra africana.
Tudo faz crer que se tratava de um lugar suburbano, na periferia de Bezerros, onde viviam remanescentes Quilombolas.
Entre os meus escritos, encontro um manuscrito que relaciona “a questão escravagista de Bezerros” com a introdução da cultura do café.  Daí a origem dos negros do Sítio Guaribas.
                  
                    BEZERROS SERRA DAS GUARIBAS



Haveria relação entre a comunidade negra das Guaribas e os quilombolas Caçulas e os Cré-crés?
Afirma que os Cré-crés vivem ainda hoje numa área antiga chamada de Sapucaia (hoje Sapucarana), onde está  o Município de São Joaquim do Monte.
Já vimos que a Pesquisa Google sobre os quilombolas de Pernambuco, relaciona;
O F      IBGE           MUNICÍPIO      COMUNIDADE 
PE     2601904        Bezerros           Guaribas


PE    2601904              Bezerros       Timbó Sítio das Goiabas




Sítio Guaribas


                                   Fazenda Serra das Guaribas                         

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


EM BEZERROS
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA



Está próximo um feriado que devia falar bem alto ao povo brasileiro: o Feriado da
Consciência  Negra no dia 20 de novembro, que este ano cai numa terça-feira.É um feriado facultativo. em homenagem a Zumbi dos Palmares.
Os Palmares no nome de Zumbi, se refere ao local onde ele formou seu quilombo, uma
espécie de reino, ou de república, como alguns consideram, que era auto-sustentável, e local de fuga para muitos escravos negros escapados das fazendas, prisões e senzalas. O reino chegou a alcançar quase o tamanho de Portugal, ficava no interior da antiga Bahia, hoje, estado do Alagoas, e a ter mais de 30 mil habitantes”.
Pouca gente sabe que que, em dados oficiais, o Brasil é a segundo maior população de afro descendentes. ficando atrás apenas da Nigéria. No Brasil, cerca de 80 milhões de indivíduos se declaram de “raça negra”. É bom saber também que o Brasil foi a segunda maior nação escravista dos últimos séculos e que foi o último país a abolir a escravidão. Foi o maior importador de escravos da história moderna.
“Não precisamos dizer que tudo isso gerou um efeito negativo sobre a imagem dos negros, que até hoje, mesmo depois da abolição da escravatura e da criação de leis contra o racismo, sofrem preconceito racial.”
“O Brasil e o mundo ainda têm muito chão para andar até extinguir de vez o racismo de sua cultura, dita civilizada” .


BEZERROS  E AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS

Turismo e Cultura
Bezerros lembra o Dia da Consciência Negra
Data: 20/11/2009 02:00 - Atualizado em - 23/11/2009 11:10
 O dia da Consciência Negra, lembrado hoje em todo o país, mereceu destaque no município de Bezerros, Agreste do Estado. A praça central da cidade serviu de palco para as apresentações de mais de cinco grupos folclóricos que, em suas evoluções, representaram um pouco da cultura negra no país, o que chamou a atenção dos moradores da cidade que passavam pelo Centro. “Não sabia que hoje se comemorava esse dia, mas acho muito importante pela contribuição que eles (os negros) deram a nossa história”, comentou Maria de Lourdes, agricultora que mora em Serra Negra e parou para prestigiar os grupos.

“Esse evento fortalece a nossa cultura, é uma forma de reconhecermos a importância da classe em nossa história”, enfatizou a secretária de turismo de Bezerros, Valquíria Lizandra.
De J. Borges
"Chegada da prostituta no céu"

CUlTURA POPULAR




O diretor de Cultura do município, Roberval Lima, enfatizou a importância do evento. “Pela primeira vez Bezerros, que tem uma história ligada à cultura negra, faz jus ao seu passado”, lembrou.
A decisão para a realização do evento partiu da prefeita Bete Lima, que recentemente visitou a comunidade dos quilombolas no município, para anunciar ações do governo na comunidade, que conta com 109 famílias. 
O Dia da Consciência Negra é um dos capítulos da História do Brasil mais lembrados pelas comunidades quilombolas, que lutaram muito para criar sua própria sociedade nos tempos da escravidão. Nesta sexta-feira, 20.11.2009, enquanto a Consciência Negra era lembrada em diversos cantos do País, Bezerros deu a sua parcela de contribuição ao movimento com apresentações afroculturais no centro da cidade. Vários grupos folclóricos fizeram apresentações com participação da comunidade quilombola Guaribas de Baixo, enraizada no distrito de Boas Novas, do município. O Folc Popular representou a dança Afro Zumbi, enquanto o Papanguart, o Maracatu Imperial. Já os Guaribas de Baixo representaram em grande estilo a Dança da Mazurca. Dentro da programação, houve apresentações de afoxés, capoeiras e relatos sobre o papel do negro na conquista de uma sociedade mais humana. Durante as apresentações, a Secretária de Turismo do Município, Vaquíria Lizandra registrou seu pensamento: “Esse evento fortalece a nossa cultura, uma forma de reconhecermos a importância da classe em nossa história”. Por sua vez, o Diretor de Cultura do Município, Roberval Lima, lembrou: “Pela primeira vez Bezerros, que tem uma história ligada à cultura negra, faz jus ao seu passado”.


" Na segunda série de reportagens especiais sobre o mapa da fome no Brasil, os repórteres Xico Sá e Ubirajara Dettmar, da Agência Brasil, visitaram as Guaribas brasileiras, a do Piauí e a de Pernambuco. As duas cidades são xarás no batismo e na geografia da miséria, da necessidade e do esquecimento."
Aguarde próxima postagem.




"A maioria das mães perdeu filhos por conta da desnutrição. Toda casa já mandou seus 'anjinhos´ pro colo de Nosso Sernhor", diz uma senhora ao repórter., Veja foto acima, à esquerda.
O

FAZENDA DA SERRA DAS GUARIBAS
BEZERROS  - AGRESTE PERNAMBUCANO

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

CONVENTO DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA
CAPELA DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Sabia você que no Convento de Nossa Senhora das Neves de Olinda existia uma Capela da Santíssima Trindade?
Em toda a minha vida de franciscano (hoje conto com 78 anos) nunca ouvi falar que houvesse sinais de uma antiga Capela da Santíssima Trindade no Convento de Olinda.
Em sua obra O Azulejo na Arquitetura Religiosa de Pernambuco – Séculos XVII e XVIII, São Paulo, 2006, Metalivros, escreve a pesquisadora Sylvia Tigre de Hollanda Cavalcanti:
“São azulejos  dos dois séculos (XVII e XVIII) em que o convento verdadeiramente se edificou e, sendo assim, abordo primeiro os mais antigos.
Estes são os da antiga Sala do Capítulo e também os da Capela da Santíssima Trindade (grifo nosso), pequeno cômodo com acesso pela galeria sul do claustro” (pg. 67)”.
Hoje, não há sinal de azulejos na capela da Santíssima Trindade. “O padrão dos azulejos é do tipo `massaroca´, azul e amarelo com cercadura nos mesmos tons, mas noutro padrão, típico dessa utilização”, escreve a autora. Isto é plenamente válido para a Sala do Capítulo. Mas não resta nenhum sinal de azulejo na tal Capela da Santíssima Trindade. Mas se vê que restam aí os sinais da Capela: o grande nicho encimado por debrum em alvenaria, como se vê nas fotos deste Blog.
 

VISTA DA SACRISTIA  PARA A CAPELA DA SS. TRINDADE
PARA O BLOG DE FREI JOSÉ MILTON:


A CAPELA CAPITULAR DO CONVENTO DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA

Na década de 30 Frei Matias Teves voltava a Olinda como Professor de Filosofia. Possivelmete dessa época são os seus escritos sobre o Convento de Olinda: história, arquitetura, pinturas, azulejos...

Desta vez, vamos transmitir o que ele nos legou sobre a “Capela Capitular” ou, como é mais conhecida, a “Capela do Capítulo”.

É uma pequena capela, único resto do primitivo Convento. Com azulejps de duas cores com desenhos geométricos; no fundo, entre duas janelas, destaca-se o altar de Nossa Senhora, ladeada de São Francisco e de santo Antônio. As obras de talha, em parte estragadas, em parte renovadas no mesmo estilo, revelam o desejo dos religiosos de zelar as obras antigas e, por outro lado, a falta de recursos, porque “a verba solicitada por Frei Matias” (destaque nosso) há poucos anos, e obtida do Governo, não era suficiente para levar a termo o trabalhão iniciado de restauração.

Dignos de nota são ainda os painéis do teto, assim como a lápide de mármore em frente ao altar que, desde o ano de 1656 tem guardado os restos mortais do patrono da Capela: Capitão Francisco do Rego Barros e de sua esposa Dona Arcanja da Silveira. Além dos dizeres alusivos, o epitáfio ostenta em relevo o seu brasão d´darmas.

Até aqui o que devemos a Frei Matias Teves. Na mesma década de trinta, como catedrático da Escola de Belas Artes de Pernambuco (ele foi um dos fundadores) recebeu muitas veze o encargo de pedir auxílio financeiro ao Presidente Getúlio Vargas, para não ver a Escola fechar as portas. Em 1940 vai pessoalmente ao Rio para angariar recursos da Presidência para a Escola de BelasArtes. Estava, pois tarimbado para conseguir verba para o seu querido Convento de Olinda.

Aqui, gostaríamos de emitir uma opinião sobre o costume de adotar patronos para as obras de arte dos Conventos.

Os religiosos não contavam com meios financeiros para a coservação do patrimônio artístico. Recorriam a benfeitores ricos que patrocinavam um altar ou uma capela, como legado, obtendo o direito de sepultura com lápide, recebendo, os benefícios espirituais garantidos pelo Direito da Igreja e da Ordem.

Muitas vezes, porém, os herdeiros não cumpriam suas obrigações, caindo muitos legados no esquecimento.

Temos o exemplo de Ipojuca: o benfeitor Francisco Dias Delgado (doador do terreno para a construção do Convento) e sua Esposa D. Catarina Moreno fizeram doação ao Convento de Ipojuca de muitas léguas de terra, com gado vacum, em Porto de Galinhas e Oiteiro de Maracaípe para manutenção do Convento, especialmente da sustentação do culto à imagem milagrosa do Senhor Santo Cristo. Os herdeiros se negaram a realizar a vontade dos doadores e os frades perderam tudo.

Até o terreno do Convento extramuros foi roubado pelo dono de um Engenho vizinho que mudou a posição dos marcos e nunca devolveu a escritura que um Guardião ingenuamente lhe confiara, acreditando que iria servir para

confirmar os limites, sobre os quais haveria a dúvidas.

Se o Convento ainda fosse possuidor dessas terras, hoje poderia reparti-las do com os pobres como gostaria de fazê-lo.

Frei Fulgêncio (soube isto de um grande amigo dele advogado), vigário de mão cheia em Ipojuca na década de 50, conseguiu boa soma de dinheiro na Alemnha, para a construção de casa para os pobres de Ipojuca. Não chegou a levantar uma única casa. A razão: o usineiro da Usina Salgado que também era Prefeito, não cedeu um palmo de terra para o projeto do Vigário. O dinheiro foi devolvido aos doadores.

Nossa Senhora do Oiteiro passou ao Patrimônio Diocesano.

Já os Currais de São Miguel, foi doação feita ao Patrimônio do Padroeiro da Paróquia e ainda hoje rende em benefício da Paróquia de Nossa Senhora do Ó (!), embora sua administração tenha sido confiada ao Vigário de Ipojuca.

Voltando à Capela do Capílulo, e pensando em outras riquezas arquitetônicas do Convento, poderíamos perguntar de onde vinha tanto dinheiro para essas obras que hoje admiramos.

Quem nos vai responder é a escritora Sylvia Tigre de Hollanda Cavalcanti, no livro, fruto de sua pesquisa e texto: O Azulejo na Arquitetura Religiosa de Pernambuco - Séculos XVII e XVIII (São Paulo, 2006, Metalivros), quando, à página 16, escreve: “O grande repertório do acervo de azulejos é o Nordeste, com destaque para Pernambuco e Bahia. Dora Alcântara associa os círculos econômicos nordestino à profusão dos nossos azulejos, A região era mesmo próspera e rica nos séculos em que a arte se propagou” (pg. 16).

Mas, não se pode explicar tudo pela riqueza de Pernambuco e Bahia. Dora Alcântara, acrescenta ainda três fatores: o social, o político e o geográfico.

Os templos pernambucanos são beneficiados pelo fator social: o surto de ufanismo, a renovação do sentimento religioso católico. Mas não bastava isso: a riqueza advinda da cana de açúcar e o propósito dos senhores de engenho de manter sempre boas relações o com a Igreja Católica “de marcante presença na sociedade daquela época foi fundamental para o recebimento pelas Ordens religiosas, de grandes doações financeiras, heranças em testamento etc. Os recursos se refletiam no embelezamento dos templos religiosos como o ouro que tanto enriquece as talhas da igrejas e capelas, na imaginária e nas pinturas e, claro, Também na azulejaria” (p. 17).

Já na Bahia predominou o fator político. Capital da Colônia desde 1763, esteve em liderança durante todo o período de expansão da arte de azulejaria. Claro que isto beneficia sobejamente os patrimônios históricos e artísticos baianos, em quantidade e qualidade, opina Dora Alcântara.











quarta-feira, 17 de outubro de 2012

CONVENTO DAS NEVES DE OLINDA

A CAPELA CAPITULAR DO CONVENTO DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA
Na década de 30 Frei Matias Teves voltava a Olinda como Professor de Filosofia. Possivelmete dessa época são os seus escritos sobre o Convento de Olinda: história, arquitetura, pinturas, azulejos...


CAMPA SEPULCRAL DO
CAPITÃO FRANCISCO
DO REGO BARROS E ESPOSA
PATRONOS DA CAPELA



Desta vez, vamos transmitir o que ele nos legou sobre a “Capela Capitular” ou, como é mais conhecida, a “Capela do Capítulo”.
É uma pequena capela, único resto do primitivo Convento. Com azulejps de duas cores com desenhos geométricos; no fundo, entre duas janelas, destaca-se o altar de Nossa Senhora, ladeada de São Francisco e de santo Antônio. As obras de talha, em parte estragadas, em parte renovadas no mesmo estilo, revelam o desejo dos religiosos de zelar as obras antigas e, por outro lado, a falta de recursos, porque  “a verba solicitada por Frei Matias” (destaque nosso) há poucos anos, e obtida do Governo, não era suficiente para levar a termo o trabalhão iniciado de restauração.

Dignos de nota são ainda os painéis do teto, assim como a lápide de mármore em frente ao altar que, desde o ano de 1656 tem guardado os restos mortais do patrono da Capela: Capitão Francisco do Rego Barros e de sua esposa Dona Arcanja da Silveira. Além dos dizeres alusivos, o epitáfio ostenta em relevo o seu brasão d´darmas.

Até aqui o que devemos a Frei Matias Teves. Na mesma década de trinta, como catedrático da Escola de Belas Artes de Pernambuco (ele foi um dos fundadores) recebeu muitas veze o encargo de pedir auxílio financeiro ao Presidente Getúlio Vargas, para não ver a Escola fechar as portas. Em 1940 vai pessoalmente ao Rio para angariar recursos da Presidência para a  Escola de BelasArtes. Estava, pois tarimbado para conseguir verba para o seu querido Convento de Olinda.

 Aqui, gostaríamos de emitir uma opinião sobre o costume de adotar patronos para as obras de arte dos Conventos.

Os religiosos não contavam com meios financeiros para a coservação do patrimônio artístico. Recorriam a benfeitores ricos que patrocinavam um altar ou uma capela, como legado, obtendo o direito de sepultura com lápide, recebendo, os benefícios espirituais garantidos pelo Direito da Igreja e da Ordem.

Muitas vezes, porém, os herdeiros não cumpriam suas obrigações, caindo muitos legados no esquecimento.

Temos o exemplo de Ipojuca: o benfeitor Francisco Dias Delgado (doador do terreno para a construção do Convento) e sua Esposa D. Catarina Moreno fizeram doação ao Convento de Ipojuca de muitas léguas de terra, com gado vacum, em Porto de Galinhas e Oiteiro de Maracaípe para manutenção do Convento, especialmente da sustentação do culto à imagem milagrosa do Senhor Santo Cristo. Os herdeiros se negaram a realizar a vontade dos doadores e os frades perderam tudo.

Até os terrenos do Convento extramuros foram roubados pelo dono de um Engenho vizinho.

Em uma informação ministrada ao Governo civil pelo Guardião Frei Jerônimo do Patrocínio de S. José, consta o seguinte: os terrenos extramuros doados aos frades por Francisco Dias Delgado, com seus marcos, esteve sempre na posse dos religiosos até o ano de 1822. "Tendo o senhor do Engenho naquele tempo, Joaquim Pedro do Rego de levantar outro Engenho anexo às nossas terras, denominado Bom Jesus da Conceição Nova, - escreve ao Governador o mesmo Frei jerônimo - pediu em confiança, os títulos de nossas trerras ao prelado atual, que era naquele tempo o padre pregador Frei Antônio de Santa Margarida, o qual lh´os deu, como ele mesmo confessou perante testemunhas. E tendo de entregar o Convento a outro Guardião, e , com ele, os títulos das terras, este (Joaquim  Pedro do Rego) foi protelando com desculpas, que afinal nem àquele nem a outro algum Guardião, os entregou mais, e subrepticiamente as anexou ao seu Engenho Conceição Nova, que é hoje dos herdeiros da viúva de Domingos Costa do Engenho Emboasica, esbulhado, dese modo, ao Convento o direito de suas terras. Afirmo estas circunstâncias ouvidas, não só por ser notórias, como mesmo por me ter  contado o mesmo Frei Margarida, no ano de 1826, mais ou menos". 

Se o Convento ainda fosse possuidor dessas terras, hoje poderia reparti-las  com os pobres como gostaria de fazê-lo.

Frei Fulgêncio (soube isto de um grande amigo dele advogado), vigário de mão cheia em Ipojuca na década de 50, conseguiu boa soma de dinheiro na Alemanha, para a construção de casas para os pobres de Ipoojuca. Não chegou a levantar uma única casa. A razão: o usineiro da Usina Salgado que também era Prefeito, não cedeu um palmo de terra para o projeto do Vigário. O dinheiro foi devolvido aos doadores.

Nossa Senhora do Oiteiro passou ao Patrimônio Diocesano.

Já os Currais de São Miguel, foi doação feita ao Patrimônio do Padroeiro da Paróquia e ainda hoje rende em benefício  da Paróquia de Nossa Senhora do Ó (!), embora sua administração tenha sido confiada ao Vigário de Ipojuca.

Voltando à Capela do Capílulo, e pensando em outras riquezas arquitetônicas do Convento, poderíamos perguntar de onde vinha tanto dinheiro para essas obras que hoje admiramos.

Quem nos vai responder é a escritora Sylvia Tigre de Hollanda Cavalcanti, no livro, fruto de sua pesquisa e texto:  O Azulejo na Arquitetura Religiosa de Pernambuco - Séculos XVII e XVIII (São Paulo, 2006, Metalivros), quando, à página 16, escreve: “O grande repertório do acervo de azulejos é o Nordeste, com destaque para Pernambuco e Bahia. Dora Alcântara* associa os círculos econômicos nordestino à profusão dos nossos azulejos, A região era mesmo próspera e rica nos séculos em que a arte se propagou” (pg. 16).



 PEDRA SEPULCRAL NO CLAUSTRO DO CONVENTO






Mas, não se pode explicar tudo pela riqueza de Pernambuco e Bahia. Dora Alcântara, acrescenta ainda três fatores: o social, o político e o geográfico.

Os templos pernambucanos são beneficiados pelo fator social: o surto de ufanismo, a renovação do sentimento religioso católico. Mas não bastava isso: a riqueza advinda da cana de açúcar e o propósito dos senhores de engenho de manter sempre boas relações com a Igreja Católica “de marcante presença na sociedade daquela época foi fundamental para o recebimento pelas Ordens religiosas, de grandes doações financeiras, heranças em testamento etc. Os recursos se refletiam no embelezamento dos templos religiosos como o ouro que tanto enriquece as talhas da igrejas e capelas, na imaginária e nas pinturas e, claro, Também na azulejaria” (p. 17).

Já na Bahia predominou o fator político. Capital da Colônia desde 1763, esteve em liderança durante todo o período de expansão da arte de azulejaria. Claro que isto beneficia sobejamente os patrimônios históricos e artísticos baianos, em quantidade e qualidade, opina Dora Alcântara.
Quanto ao fator geográfico, "ele foi determinante não apenas nos dois Estados já referidos, como em todos os outros que dispunham de porto marítimo (do Pará ao Rio de Janeiro)  e que, em maior ou menor escala, têm os bens culturais acrescidos em valor e beleza pelos azulejos portuguêses.
É, em parte, pela dificuldade de transporte de um material frágil (que
teria de ser levado em lombo de animais) que a cidade de São Paulo
não tem nada de azulejaria religiosa. Em todo o Estado do mesmo
nome existe apenas no convento franciscano de Itanhaém, no litoral
norte. De outra parte, volta o fator econômico, porque o poderio
financeiro do  Estado só ocorreria muito depois.
Noutro Estado, Minas Gerais, que enriqueceu a partir da sexta
década do século XVIII, com a descoberta do ouro, só há uma igreja -
a de Nossa senhora do Carmo, em Ouro Preto - que ostenta alguns
painéis azulejares.
Contribuiu também, neste caso, o fato de lá não existirem as Ordens
Religiosas, que eram as grandes demandantes da azulejaria: a
Franciscana, em primeiro lugar, a Beneditina e a Carmelita."
E conclui a autora:
"Portanto, dentre tudo o que a sempre desprestigiada Região Nordeste tem para orgulhar-se se encontra, indubitavelmente, todo o valioso acervo da azulejaria religiosa portuguesa do Brasil ” (p. 17).




CONVENTO DE NOSSA SENHORA DAS NEVES DE OLINDA




* Dora Monteiro e Silva de - Patrimônio Azulejar Brasileiro: Aspcto Histórico e de Conservação. Azulejo, Documento da nossa Cultura. Brasília: Monumenta  BID / Ministério de Cultura, 2001, p. 28.