quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DOCE É SENTIR

CANÇÃO FRANCISCANA

SE VOCÊ NÃO CONHECE ESTA CANÇÃO, OUVINDO-A, VAI DORÁ-LA! É DO FILME IRMÃO SOL, IRMÃ LUA DE ZEFIRELLI, INÍCIO DA DÉCADA DE 80. O FILME NOS LEVOU A AMAR MAIS SÃO FRANCISCO E SANTA CLARA.
OUÇA E VEJA:

DOCE É SENTIR

Doce é sentir:
Em meu coração,
Humildemente,
Vai nascendo amor.
Doce é saber:
Não estou sozinho,
Sou uma parte
De uma imensa vida
Que, generosa,
Reluz em torno a mim,
Imenso dom
Do teu amor sem fim.
O céu nos deste
E as estrelas claras,
Nosso irmão sol,
Nossa irmã lua,
Nossa mãe terra
Com frutos, campos, flores,
O fogo e o vento,
O ar, a água pura,
Fonte de vida
De tua criatura,
Que, generosa,
Reluz em torno a mim,
Imenso dom
Do teu amor sem fim.

ACORDES PARA VIOLÃO:

G Am7 Bm C D7(9) G Doce é sen - tir... em meu cora - çãoEm D D9 Bm C Am7 D7Hu - milde - mente vai nascendo o amorG Am7 Bm C D7(9) G Doce é sa - ber... não estou sozinhoEm D D9 Bm C Am7 D7Sou u - ma parte de uma imensa vidaG Em Am D7 G Que genero - sa reluz em torno a mim Em Am D7 G Imenso do - om do seu amor sem fim G Am7 Bm C D7(9) G O céu nos deste as estrelas clarasEm D D9 Bm C Am7 D7Nos - so'irmão sol, nossa irmã, a luaG Am7 Bm C D7(9) G Nossa mãe terra, com frutos, campos, floresEm D D9 Bm D Am7 D7O fo - go e o vento, o ar e água puraG D D9 Bm C Am7 D7 Fonte di - vina de tua criaturaG Em Am D7 G Que genero - sa reluz em torno a mim Em Am D7 G Imenso do - om do seu amor sem fim
Acordes: para violão
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VÍDEO: desta vez não conseguimos trazê-lo para o blog , mas você pode encontrar vários, pesquisando no Google: vídeos com Doce é Sentir de Irmão Sol, Irmã Lua, de Zefirelli.

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ORDEM TERCEIRA DE SÃO FRANCISCO EM IPOJUCA

UM POUCO DA HISTÓRIA
A IMAGEM DE S. ROQUE
– Havia no Convento, por volta de 1703 uma imagem de S. Roque. Era o Patrono da Ordem Terceira de Ipojuca. Tinha a sua festa a 02 de janeiro. A imagem de S. Roque se encontrava na capela lateral do Bom Jesus, a capela do Sr. Santo Cristo, chamada também de antigo Santuário. Hoje se acha no nicho lateral, frente ao altar da Conceição.
O Inventário de 1852 lhe atribuía 2 pares de cortinas com sanefas.

A ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO

O culto a S. Roque aponta para a existência de uma Fraternidade da Ordem Terceira em Ipojuca. Sabemos que ela existiu, embora nos faltem dados mais precisos sobre a sua atuação. “Sobre a fundação da fraternidade terciária de Ipojuca, não temos dados exatos. Informa o Novo Orbe Seráfico: ´Na Congregação de 16 de junho de 1703, se nomeou o primeiro Comissário dos Terciários para esse Convento [de Ipojuca]. Se antes disto havia já ali alguns Irmãos desta Venerável Ordem, dirigidos pelos Prelados e Guardiães da casa, não temos certeza. Tomaram por titular o Glorioso S. Roque, e a sua imagem se acha colocada no altar do Sr. Santo Cristo, sem mais ato algum da sua Ordem que tomarem hábito, professarem, fazerem eleição de ministro e mais ofícios e celebrarem a festa do seu santo titular no outro dia depois que se soleniza a do Sr. Santo Cristo, por ser esta a ocasião de maior concurso de gente no lugar.´ ” [1]





Para se ter idéia da situação em que se encontrava a Ordem Terceira de São Francisco quando da chegada dos frades restauradores na última década do século XIX, é bom não perder de vista a situação em que se encontrava a Igreja no Brasil diante da política régia inspirada pelo regalismo português:
“Em princípios do século XVIII, expediam-se decretos res­tringindo a construção de novos conventos, e permitindo apenas hospícios. em lugar de conventos, nas aldeias de índios missio­nadas pelos religiosos, para limitar o número dos missionários. Na realidade, contribuiu este dispositivo para relaxar a disci­plina regular, dando também margem a abusos.
Limitado o número dos conventos, o regalismo português reduziu o número dos próprios religiosos, restringindo a aceita­ção de candidatos às diversas Ordens . Seguiu-se a proibição de certas atividades, como, por exemplo, o ensino elementar nas escolas religiosas.
A conseqüente decadência das Ordens foi favorecida pela aquisição de abundantes privilégios e títulos, como também pela lei da alternativa, e pela demasiada submissão dos religiosos portugueses às exigências injustas da metrópole. Não negamos que a falta de disciplina regular, existente em muitos conventos daquele tempo, representasse um grande mal. Entretanto, muito mais funesta foi, para a vida religiosa, a intromissão do governo civil nos negócios internos da igreja e das Ordens, irrogando-se a coroa portuguesa direitos e poderes que não lhe cabiam, como aliás fez também o Império Brasileiro até sua queda em 1889.
Para acabar com certos abusos, como os havia em muitas Ordens, não se tornava indispensável extinguir as comunidades religiosas, e sim reformá-las. Quantas perdas de valores irre­cuperáveis teriam sido evitados pelos governos, no terreno da arte, da história, da literatura e da religião, se se houvesse conservado e garantido a marcha da vida religiosa nos conventos do Brasil
Enquanto o convento ipojucano, de 1739 a 1749, contava dezoito a dezenove religiosos (5 e 6), a partir de 1796 não abrigava mais de cinco, chegando a ficar desabitado em 1890.
Mais do que qualquer outro estabelecimento, ressentiu-se da falta de sacerdotes, em face do santuário que lhe ficava anexo como alvo de ininterruptas peregrinações. Haviam-se desva­necido as solenidades do culto divino. Desde muito que o claustro não presenciava as longas fileiras de franciscanos ao ensejo das rasouras e demais exercícios de piedade realizados em comum.” [2]

Vejamos agora o que escreve Frei Venâncio Willeke sobre o contexo histórico da obra restauradora, em seu livro Convento de Stº Cristo de Ipojuca: [3]
“Morrendo, a 24 de junho de 1890, o último guardião e inqui­lino do convento ipojucano. parecia esse prédio quase trissecular fadado a completo abandono e desmoronamento. Durante os dois anos seguintes. o superior franciscano de Sirinhaém único sobrevivente religioso. se encarregou de administrar a casa conventual. até que também ésse ancião baixou à sepultura, em 1892.
Como o convento houvesse recebido o último conserto parcial. durante a gestão de frei Antônío da Rainha dos Anjos (1850-1852), é fácil imaginar o estado deplorável a que chegara o prédio com a falta completa de religiosos. O último inventário da época aponta objetos de longa duração, que entretanto desa­pareceram para sempre, não constando se devido ao abandono trienal do convento (1892-1895), ou se os próprios franciscanos se desfizeram deles .
Antes que os ipojucanos esperassem, apareceu, em meio ao abandono, uma vaga promessa de outros religiosos. E que a 27 de dezembro de 1892 e a 8 de junho de 1893, respectivamente, haviam chegado à Bahia as duas primeiras turmas de francis­canos alemães da Província Saxônia, a primeira chefiada por frei Amando Bahlmann, e a segunda pelo padre comissário provincial, frei Irineu Bierbaum (11 e 12). Ambos percorreram, ainda em 1893, os conventos do Recife, Olinda e Ipojuca, para verificar se convinha restaurá-los.
Convencendo-se das tristes condições em que vivia a paró­quia de S. Miguel de Ipojuca, pregou frei Amando duas missões, ao ensejo das festas tradicionais do Sr. Santo Cristo de Ipojuca, em 1894 e 1895, preparando a um tempo o ânimo da população para a possível chegada dos franciscanos alemães.
De fato, em princípios de 1895, apareceu em Ipojuca o pri­meiro franciscano, com ordem de ocupar o convento. Era frei Fernando Oberborbeck, que cooperara na segunda missão pre­gada por frei Amando. Em fins de abril do mesmo ano, tomou posse do convento o. primeiro superior, na pessoa de frei Adalberto Kirschbaum, a quem o bispo de Pernambuco, logo em meados de maio, entregou também o paroquiato.
Salvara-se de completa ruína o venerando convento de Santo Antônio de Ipojuca, e garantia-se a vida regular, interrompida havia muito tempo.
Para fazer idéia do que significava a restauração da vida franciscana, ouçamos uma testemunha ocular, frei Joaquim do Espírito Santo, um dos últimos sobreviventes da antiga Pro­víncia. De sua carta, dirigida ao padre comissário frei Irineu, extraímos os tópicos mais expressivos:
Devemos muitíssimo a Vossa Paternidade e aos vossos irmãos de hábito. fiada direi dos benefícios que nos fizestes em tão larga escala e de que sempre nos recordaremos; nem falarei da restauração da Província que outros puderam fazer; mas falarei do modo desta restauração, da observância da regra, da vossa excessiva caridade e da de todos os confrades alemães, para com nós brasileiros, também vossos irmãos de hábito, e sobretudo pelo coração; falarei dos exemplos de piedade e de todas as virtudes que nos servem de lição e incitamento.
Bem me disse nosso confrade frei Antônio da Ascensão ´Agora, vendo o que fazem os nossos irmãos germânicos, mais ainda me lembro das contas que tenho de prestar a Deus da minha administração´.
Falando assim exprimiu meus próprios sentimentos. Tenho trabalhado muito pela restauração da nossa Província, consa­grando-lhe todos os meus esforços. Este pobre homem clamou ao Senhor e foi atendido. Mas, não havia esperado tantas bênçãos e tanta felicidade. Deus seja bendito que mandou tantos e tais operários para a sua vinha seráfica; já posso dizer com o sal­mista: ´Agora despedis o vosso servo em paz, porque meus olhos viram a restauração da nossa Província por que tanto anela­ra´. [4]

Coma chegada dos frades restauradores da Província Franciscana da Saxônia, o primeiro vigário franciscano de ipojuca, Frei Adalberto Kirschbaum, relata:
“Quando Frei Ireneu retornou à Alemanha, Frei Amando se tornou Comissário. No ano de 1895, aceitou ele o antigo convento, em Ipojuca, em situação deplorável. Eu fui para lá enviado, como superior e pároco – o primeiro pároco da Província do Norte. A paróquia tinha cerca de 2'7.000 almas e 20 capelas. Dela dizia o Ex.mo Bispo D. Manuel dos Santos Pereira, que era a pior paróquia de sua Diocese”.
No Capítulo XIII de sua obra sobre o Convento de Ipojuca, trata Frei Venâncio da
VENERÁVEL 0. 3.ª DE S. FRANCISCO
A história da Ordem Terceira de Ipojuca é tão puco conhecida dos próprios frades, que acho por bem transcrever o que escreve Frei Venâncio sobre ela:.
“Além das Ordens dos Frades Menores (Franciscanos) e Clarissas, fundou S. Francisco a chamada. Ordem Terceira, para aqueles que, não podendo abraçar a vida estritamente religiosa, desejassem seguir o ideal franciscano no século. O fim dessa Ordem Terceira é a santificação das famílias cristãs.
É óbvio que todo convento franciscano procure agregar à sua igreja uma fraternidade terciária.
Falando Jaboatão em "nossa irmão da confraternidade" (Francisco Dias Delgado), não significa. ter este pertencido à Ordem 3.ª, mas ao número dos principais benfeitores filiados à Ordem 1.ª .
Sobre a fundação da fraternidade terciária de Ipojuca, não temos dados exatos . Informa o Novo Orbe Seráfico : "Na Con­gregação de 16 de junho de 1703, se nomeou o primeiro Comis­sário dos Terceiros para esse Convento. Se antes disto haviam já ali alguns Irmãos desta Venerável Ordem, dirigidos pelos Prelados e Guardiães da casa, não temos certeza. Tomaram por titular o Glorioso S. Roque, e a sua imagem se acha colocada no altar do Sr. Santo Cristo, sem mais ato algum da sua Ordem que tomarem hábitos, professarem, fazerem eleição de ministro e mais ofícios e celebrarem a festa do seu santo titular no outro dia depois que se soleniza a do Sr. Santo Cristo, por ser esta a ocasião de maior concurso de gente no lugar".
A esta breve informação, juntamos outra, menos animadora ainda, que data do princípio do século XIX: "consta-nos que já hoje nada disto fazem (do que Jaboatão apontou acima) o que não obstante sempre se nomearam comissários". E. falando sobre a imagem do padroeiro que ainda se acha no altar do Sr. Santo Cristo diz o texto: "sem até agora, fazerem ca­pela'' (4) .
Nenhum outro documento relativo à O: 3.ª de Ipojuca chegou ao nosso
conhecimento. Apenas a imagem de S. Roque sobreviveu à Fraternidade extinta no século passado.
Por deprimentes que pareçam as parcas notícias, não po­demos considerar a O. 3.ª uma fundação malograda. Desconhe­cemos as pérolas de virtude que terão adornado a humilde e pobre fraternidade, durante o primeiro século de sua existência. Enquanto em terras brasileiras a decadência da O. 3.ª acom­panhava a dos próprios franciscanos, faziam-se ouvir no Va­ticano os apelos pontifícios em favor da Venerável Ordem reformada em 1883. Escrevia o Papa da Questão Social: "Es­tamos persuadidos de que a Ordem Terceira é o remédio mais eficaz para extirpar os males em que se debate a nossa sociedade atual e o meio mais apto para levar o mundo à verdadeira observância do Evangelho" (5). Daí a conclusão: "É nosso desejo que todas as famílias se inscrevam na O. 3.ª" e a ordem transmitida à imprensa franciscàna : "Consagrai-vos a propagar, com todas as vossas forças, a O. 3.ª, porque ela há de regenerar o mundo" , pois "assim como a O. 3.ª em tempo do seu fundador S. Francisco, reformou o mundo, assim também agora o há de regenerar".
Dando mais ênfase ao seu convite, afirma o mesmo Papa Leão XIII: "Não sem inspiração de Deus temos recomendado uma e outra vez este instituto, porque a O. 3.ª não é outra coisa senão a vida cristã bem entendida".
À vista de tantas recomendações pontifícias, não admira que o guardião de Ipojuca, frei Adalberto Kirschbaum, proce­desse à fundação de nova fraternidade terciária, a 4 de outubro de 1896. Embora o número dos irmãos fosse sempre reduzido, pode a nova fraternidade gabar-se de grandes realizações na instrução religiosa da juventude, na assistência aos pobres e doentes como na solenização do culto divino. Mais ou menos 120 irmãos chegaram a. professar, a partir de 1897.
Damos a seguir a relação dos padres comissários da O. 3.ª de Ipojuca (11)
1. 1703 Hilário da Visitação
2. 1709 Jerônimo da Graça
3. 1710 Eugênio da "Natividade
4. 1712 Manuel de St.' Antônio
5. 1714 José dos Prazeres, Pres.
6. 1718 Manuel da Piedade
7. 1719 Antônio da Glória
8. 1721 Dionísio da Madre de Deus
9. 1723 João do Pai Eterno
10. 1726 Manuel do Nascimento
11. 1727 Nicolau do Paraíso
12. 1729 Luís de São Boaventura –
13. 1730 Eugênio do Espirito Santo
14. 1732 João do Bom Jesus
15. 1733 José de Santa Joana
16. 1735 Nicolau do Paraíso
17.1739 José de Santa Joana
18. 1741 Ludovico da Purificação
19. 1742 Francisco de Santa Tereza
20. 1743 Manuel de Santo Agostinho
21. 1745 João do Bom Jesus
22. 1751 João de Santa Angela, Lente
23. 1757 Antônio da Purificação
24. 1760 Fernando de St .O Antônio
25. 1761 André de São Luís
26. 1763 Zacarias de Jesus Maria
27. 1766 Marçal da Vitória
28. 1768 Antônio da Conceicão liaria
29. 1771 llatias de Santa rrsula
30. 1772 Antônio de São Féliz
31. 1774 José de São Luís
32. 1779 Francisco Solano
33. 1785 Manuel de Santa Rita
34. 1787 Manuel da Ressurreicão Seiras
35. 1789 Manuel de Santo Antônio
36. 1793 Manuel de Santa Teresa Miranda
37. 1798 João de Santo Afonso
38. 1800 Antônio de São Félis
39. 1801 líanuel dos Querubins, G
40 1802 Manuel de Santa Rita Nunes, G
41. 1805 Boaventura da Sagrada Família
42. 1807 Caetano de Santa Engrácia
43. 1808 Joaquim da Purificação, G
44. 1810 José da Conceição Molina, G
45. 1811 Manuel de Santa Miquelina, G
46. 1814 Custódio de Santa Rosa Galvão, G
47. 1816 Boaventura da Sagrada Família
48. 1817 Manuel da Conceição de Maria, G
49. 1819 Jerônimo de S. Pedro de Alcântara, G
50. 1820 Manuel de Santa Rita (Campeio) Morais, G
51. 1824 Joaquim de Santa Escolástica, G
52. 1827 Tomás de Aquino, G
53. 1828 Francisco Xavier da Conceição
54 1829 Jerônimo do Patrocínio de São José, Pres.
55. 1831 Francisco de São José Magalhães, G
56. 1832 Jerônimo do Patrocínio de São José, G
57. 1835 Francisco de Santo Ináeio, G
58. 1838 João Batista do Espírito Santo, Pres.
59. 1841 José de Santa Maria Fonseca
60 1844 José de Santa Leoeádia Mota, G
A partir de 1844, o cargo de comissário dos Terceiros tem sido confiado ao guardião do convento, excetuando-se o período de 1860 a 1862. em que o exerceu frei José de Santa Leocádia Mota. Veja-se a relação dos padres superiores. no capítulo XXIV deste trabalho.” [5]
Demos de novo a palavra ao primeiro vigário franciscano de Ipojuca Frei Adalberto para concluirmos com otimismo o que sombriamente começamos:

O bom Deus abençoou o nosso trabalho. Quando D. Manuel, Bispo de Per­nambuco, foi a Ipojuca, em 1898, nos disse: "Agora, sim, Ipojuca é a mi­nha melhor freguesia e não me trás preocupações: " No começo, não tínha­mos confissões e comunhões. Mas depois, de um ano, eram 1.000, cada mês. As festas não ficaram mais somente em exterioridades, mas eram celebrações com muitas confissões e comunhões. Em breve tempo, tínhamos um bem numeroso Apostolado do Coração de Jesus, uma boa Pia União das Filhas de Maria, uma zelosa Conferência Vicentina, e mais ou menos 90 pessoas na Ordem 3ª. Tínhamos, por fim, 2 escolas com 170 crianças, que eram man­tidas pelo convento. Como disse bem acertadamente Frei Gregório, nós não privamos aos brasileiros de seu gosto por exterioridades, mas o unimos com o religioso, de acordo com o caráter brasileiro.[6]

Concluiindo, não conseguimos, por ora, precisar quando se extinguiu a Ordem Terceira (hoje dita Ordem Franciscana Secular) de Ipojuca, e a causa do seu desaparecimento. Crermos que há algumas décadas. Há´muito interesse da Fraternidade Franciscana da Ordem Terceira Secular da cidade do Cabo de Santo Agostinho (vziinha de Ipojuca) de restaurar a Fraternidade ipojucana. Várias reuniões foram realiizadas neste sentido, mas, não sabemos a que atribuir o isilêncio que hoje reina em torno do empreendimento.


[1] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, p. 42.
[2] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 61 a 62.

[3] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 62 a 64.

[4] Apud WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 63 a 64.
[5] Apud WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, pp. 43 A 45.

[6] Apud Arquivo da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, Provincialado Franciscano, Recife / PE.

terça-feira, 6 de julho de 2010

MÁRTIRES DE GORKUM





Luis Berrueco (activo de 1731-1750)-Mártires del Gorkum (1731)-Óleo/tela-Templo de san Francisco, Puebla.







SANTOS MÁRTIRES DE GORCUM (hOLANDA)


No dia 9 de julho a Ordem Franciscana celebra os Santos Mártires de Gorcum.
Já que criamos várias postagens sobre os Mártires da Guerra Holandesa, voltemos agora a nossa atenção para os Mártires de Gorcum, na Holanda.
Os franciscanos do Brasil, nas primeiras décadas do século XVII, guardavam indelevlmente na memória o martírio dos seus confradses de Gorcum, quando a sanha holandesa atacava o Nordeste. Muitos dos frades foram contemporâneos daqueles mártires, pois 60 anos apenas eram passados desde que se deu o cruel trucidamento de Gorcum.
Em seu livro Santos e Heróis do Povo, o Cardel Emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, registra para o dia 9 de julho:
“Agora vamos à Holanda. Aí veneramos os mártires da Eucaristia e da fidelidade ao Papa. São conhecidos sob o nome de MÁRTIRES DE GORCUM. Um, era dinamarquês; outro alemão; cinco eram belgas; doze, irlandeses. Todos excelentes padres e religiosos. A morte deles ocorreu a 9 de julho de 1572.”
O “Missal Franciscano” dedica o dia 9 de julho a São Nicolau Pick e companheiros mártires da Ordem I. Mas poderia ter acrescentado: “e da Ordem III”, como o faz a “Liturgia da Horas” próprio da Família Franciscana do Brasil, onde lemos:
“No mês de junho de 1572, os calvinistas , comumente chamados gueusos, tendo-se apoderado da cidade de Gorcum, na Holanda, prenderam os frade Menores daquele Convento e vários outros sacerdotes. Depois, andaram com eles pelas várias ruas da cidade, expondo-os à irrisão do povo. Conduziram-nos presos a Brielle, onde o Governador Lumey tentou por todos os meios levá-los a renegar a doutrina católica sobre a Eucaristia e o Primado do Romano Pontíficem na Igreja. Mas como eles persistissem com coragem, na verdadeira fé, form sujeitos a cruéis sofrimentos. Finalmente morrem enforcados, tendo seus corpos totalmente esquartejados.
A História desse martírio foi escrita por um contemporâneo.
Transcrevemos um pequeno trecho do seu relato, omitindo os outros por serem demais escrabosos e, capazes de provocar náuseas:




Extraído de Moreau, SJ, Les Saints et Saintes de Dieu. Publicado em Uncategorized às 5:07 pm por FBMV (Pesquisa Google).






“Todos, exceto quatro, foram suspensos de uma só trave oblonga. Da outra trave, entre o guardião e um irmão leigo chamado Cornélio, pendia Godofredo Duneu; o quarto, porém, Tiago [da Ordem] Premonstratense, foi suspenso de uma escada. Os carrascos executaram com muita negligência o suplício mortal, pouco se importando de que os enforcados, bem estrangulados, morressem logo. Um mordia a corda como um freio, de outro, ela passava pelo queixo, de um terceiro, pela garganta, mas não bastante apertada. Com isso, custou-lhes perder a respiração e sofreram mais tempo o último suplício, de tal modo que alguns deles, entre os quais o venerável Nicácio, com a corda na boca, respirava ainda ao clarear do dia. Estiveram a torturá-los pelo espaço de quase duas horas. Começaram pelas duas horas da madrugada e terminaram cerca das quatro.”
Recorremos de novo à Internet para colocar o leitor a par dos trágicos acontecimentos que enlutaram a Igreja, especialmente a Ordem Franciscana.
“Em 1507, os revoltados dos Países Baixos, que tinham pegado em armas, tomando o nome de Gueux, a fim de obter de Filipe II a supressão das medidas tomadas contra os herejes, tinham sido derrotados em Austruwul, perto de Antuérpia. Um certo número de vencidos se tinha refugiado nos navios; chamados Gueux do mar, eles inquietavam diversas embarcações na saída e na entrada dos portos. Eram em geral gente de má reputação que, sob o pretexto da religião, exerciam a pirataria nos mares e, em terra, as piores violências contra os católicos e sobretudo contra os religiosos e os padres. Seu chefe era Guilherme de la Marck; um historiador protestante escreveu a respeito dele: Não havia nele nem fanatismo nem falsa concepção do dever. A crueldade simplesmente, o prazer no mal, tal foi o móvel de suas ações. Expulso das águas da Inglaterra, ele soube que a cidade de Brielle, a mais importante da ilha de Voorne, na Holanda, na embocadura do rio Mosela, se encontrava praticamente desguarnecida pelos espanhóis. Ele conseguiu então conquistá-la de surpresa no dia 1° de abril de 1572, e logo em seguida começaram as habituais perseguições.
No comando de alguns navios, um de seus lugar-tenentes, Marin Brant, subiu o rio Mosela, se apossou de Dordrecht e logo se apresentou diante de Gorcum ou Gorichem. A cidade contava 5.000 mil almas; era já influenciada pela Reforma, ainda que continuasse com maioria católica, mas sem fervor. Possuía no entanto 2 Párocos, muito zelosos e piedosos, Leonardo Véchel e Nicolau Janssen, um convento de Franciscanos, cujo Guardião se chama Nicolau Pieck, padre exemplar e chefe de 18 religiosos, quase todos muito fervorosos, um cabido de Cônegos e 2 mosteiros femininos, um de Agostinhas e outro da Ordem Terceira. Quando se soube do perigo, quase todos os Cônegos e Religiosas deixaram a cidade, pondo, segundo o seu direito, suas vidas a salvo. Os outros permaneceram, esperando sustentar a coragem e animar a resistência. Mas foi inútil. Os Gueux prometeram – isto não lhes custou nada, pois eles tinham o vício do perjúrio – que iriam respeitar, e mesmo assegurar a liberdade religiosa de todos, leigos, padres ou monges; e os cidadãos, confiando nestas promessas, lhes abriram as portas da cidade. Todavia o governador, Gaspar Turk, se retirou para o castelo, onde ele recolheu todos os que, com razão, não confiavam na palavra de Brant. Estavam ali, além de alguns leigos, muito comprometidos pelo ardor de sua Fé, suas mulheres, seus filhos, os Franciscanos, salvo 3 conversos, 2 Párocos, o Capelão das Agostinhas. Jean d’Aesterwyck, um Cônego que acabará cedendo diante da morte, e um bom velhinho, Padre que tinha sofrido um acidente que lhe alterara as faculdades, mas que lhes protegeria no perigo, e que seria um dos mais valentes, Godofredo van Duynen.
Apesar da bravura e da decisão do Governador, o castelo não poderia resistir muito tempo: ele não tinha nem tropas nem as munições necessárias. Logo se tornou evidente que uma capitulação se impunha: e assim as mulheres enchiam o ar com seus gritos e súplicas; e Brant, que percebia os perigos de uma tomada de assalto e temia a chegada de um exército, reiterava suas promessas de anistia completa e geral. Então os assediados, reunidos numa sala do castelo, se confessaram, receberam a Santa Comunhão, – pois o Pe. Nicolau Janssen, muito devoto da Eucaristia, tinha salvo as Santas Espécies do Tabernáculo de sua igreja e as transportara para lá. Depois, às 2 horas da madrugada, numa sexta-feira, dia 27 de junho, abriu-se caminho para a entrada dos Gueux.



Foto da pesquisa Google



E logo se mostrou claramente a todos a maneira como Marin Brant cumpria seus juramentos. Quando seu bando entrou dentro dos muros do castelo, eles imediatamente atacaram os assediados. Ainda não queriam atentar contra a vida destes, só queriam roubar. Os assediados foram brutalmente revistados, em meio a injúrias e golpes.. Depois se fêz a lista de seus nomes. O Governador e os leigos que tiveram a reputação de ter sempre cumprido seu dever de católicos, foram separados. Gaspard Turk, sua esposa e sua filha foram enviados a Brielle; vários deles serão enforcados poucos dias depois; alguns escaparam; os outros foram presos.. Talvez Leonardo Véchel e Nicolau Pieck pudessem ser liberados; mas eles se recusam, pois querem compartilhar o destino de seus irmãos e sustentar sua coragem. Alguns deles tinham grande necessidade desta ajuda; o mêdo natural da morte e, talvez mais ainda, dos tormentos, superava a vontade de permanecerem fiéis, e os fazia ter calafrios.
Certamente eles tinham amargas razões de temer. Desde a primeira noite, no dia 27 de junho, os tormentos começaram. Para arrancar dos prisioneiros a revelação dos lugares onde eles escondiam os seus supostos tesouros, os Gueux os fizeram comparecer diante de si. Ocuparam-se primeiro de Nicolau Janssen. tiraram a corda da cintura deste Franciscano, enrolando-a no seu pescoço, depois passaram uma ponta desta corda na porta da prisão e, alternativamente puxando-a e soltando-a, levantavam e desciam o pobre Padre, até verem-lhe perto de expirar. Depois foi a vez do Padre Guardião. Depois de várias sacudidelas espantosas, a corda terminou se partindo, o supliciado caiu e permaneceu inanimado. Estava morto? Para se assegurar disto, o carrasco passou a flama de uma vela no resto. Depois passou esta mesma flama nas suas narinas, dentro da boca, aberta violentamente, queimando sua língua e o céu-da-boca. A vítima permaneceu insensível. Então ele a repeliu com um pontapé: “É somente um monge, disse, não se pedirá conta a nós de sua vida.” E todos se afastaram.
Mas o Pe. Nicolau Pieck não tinha morrido; ele recobrou os sentidos, mas sua face ficou cheia de chagas tumores sanguinolentos aé o seu último suplício, Durante 8 dias, na prisão do castelo, se renovaram cenas análogas. Os cativos sofreram ameaças, golpes, insultos e tratamentos desumanos. Enquanto isso, Marin Brant informava Guilherme de la Marck. Este último, cheio de alegria, enviou um Padre apóstata, João de Ornal, que ele tinha feito seu ministro da justiça, a fim de trazer os prisioneiros. Este último se apressou na sua tarefa, pois ele sabia que um mensageiro tinha sido enviado a Guilherme d’Orange para lhe pedir o “perdão’ para os prisioneiros. Era necessário se antecipar ao retorno deste. De fato, o príncipe enviou uma ordem de libertação. Mas la Marck recusou obediência.
No sábado, dia 5 de julho, o grupo de confessores foi levado a Brielle. A viagem, em barcas infectas, onde eles quase morreram asfixiados, foi longa, sem comida, e durou um dia inteiro. Mas foi somente na segunda-feira de manhâ que eles desembarcaram: era preciso expôr-lhes a todos os ultrajes de uma população fanatizada. E esta não deixou por menos. Logo depois La Marck os fêz comparecer diante de seu tribunal. Numa grotesca procissão, ele lhes ordenou dar a volta em torno de um instrumento de suplício, e depois de recomeçar andando para trás, e cantando a Salve Regina e o Te Deum. Se as vozes baixassem, eles as reanimavam a golpes de bastão. E enquanto eles passavam as mulheres molhavam suas vassouras na água salgada e os aspergiam gritando: Asperges me, Domine! Os prisioneiros pensavam que era a sua última hora. Mas esta só viria no dia seguinte.
Reconduzidos à prisão, aos prisioneiros de Gorcum juntaram-se 4 novos companheiros, dois Padres e dois Premonstratenses que administravam a paróquia de Mouster. Um destes, Jacques Lacops, tinha tido outrora a infelicidade de abjurar a Fé; mas, arrependido de seu crime, ele fazia uma penitência que seria coroada pelo martírio. O Pároco de Heinenoord, André Worsters, tinha levado uma vida pouco exemplar; seu confrade de Maasdam, André Bonders, tinha, ao contrário, a fama de ser um bom Padre.. E no entanto foi o primeiro que foi coroado pelo martírio: o segundo cairá de maneira vergonhosa, e não se levantará mais desta queda. Julgamentos imcompreensíveis da Sabedoria de Deus!
La Mark, mesmo sendo sanguinário, desejava mais ainda que as vítimas caíssem na apostasia. Ele mandou que elas comparecessem diante de si; tentou-as de toda a forma, provocou-lhes mesmo para uma discussão teológica, da qual Leonardo Véchel e Nicolau Pieck saíram vencedores sem dificuldade. Furioso pela sua derrota, mais furioso ainda por causa da intervenção do Conde d’Orange, La Marck deu enfim a ordem fatal.
Os condenados foram então conduzidos para um prédio dependente de um mosteiro recentemente pilhado e incendiado. Este prédio, único que tinha ficado de pé, tinha em seu interrior dois postes de diferente tamanho. Um pouco curtos para tantos condenados, mas suficientes. Os preparativos foram rapidamente feitos. Jogaram-se cordas sobre os postes, puseram uma escada , despojaram quase completamente as vítimas. Nicolau Pieck foi o primeiro a ser chamado; ele subiu, e passou por si mesmo a cabeça na corda; e enquanto sufocava, continuou a exortar seus companheiros, e sua palavra só cessou com sua vida.
Os carrascos creram então que o momento era propício para obter alguma apostasia; já na prisão um cônego e um Padre de Bonders tinham fraquejado. Os perseguidores prometeram a vida salva, pressionaram os hesitantes: mais dois cedem, o Padre Guilherme e o jovem Irmão Henrique. Os outros, aflitos com esta quedas, mais firmes até o fim, sofreram todos os suplícios. Logo 18 corpos balançavam no vazio; o décimo nono, Jacques Lacops, foi enforcado na barra mais alta da escada, pois não havia mais lugar nos postes.
No dia seguinte, cêdo, foi permitido ao povo insultar os cadáveres; fizeram-no de modo tão abundante quanto covarde. Pouco mais tarde, os carrascos retornavam. Atacaram as vítimas inertes, transpassando-as, cortando-as em pedaços. A um cortaram o nariz, a outro a lingua ou a orelha, ou outra parte do corpo e, fixando estes pedaços nos seus chapéus, nos seus cintos ou nas suas lanças, percorreram a cidade em triunfo.
Depois de meio-dia, um católico de Gorcum comprou a pêso de ouro a permissão de sepultar os mártires; mas ele não teve o direito de cumprir por si próprio este piedoso dever. Os Gueux fizeram isto: à noite, cavaram duas fossas sob os dois postes; cortaram as cordas a golpes de sabre. Os corpos dos santos mártires tombaram em desordem e foram cobertos de terra.
Mas a glória viria para eles. Desde que isto foi possível, estes corpos foram solenemente levados para Bruxelas. O Papa Clamente X beatificou os 19 mártires em 1675, e Pio IX, em 1866, os inscreveu no Catálogo dos Santos".

(Extraído de Moreau, SJ, Les Saints et Saintes de Dieu).


sexta-feira, 25 de junho de 2010

A PASSIFLORA DE IPOJUCA


Foto de Edvaldo Medeiros (Ipojuca)




Já ouviu falar da Passiflora de Ipojuca? Se é lenda ou verdade, só Deus o sabe.



Corria o ano de 1890. A 24 de junho, falecia na Bahia o último Guardião e inquilino do Convento ipojucano Frei João de Santa Teresa. Era o dia do Santo do seu nome. O trissecular Convento de Ipojuca estava fadado ao completo abandono e desmoronamento.



A Comunidade de Ipojuca se extinguira rapidamente, o mesmo tendo acontecido com outros conventos da Província Franciscana de Santo Antônio e também com os de outras Ordens religiosas. A política imperial contra a Igreja chegara ao cúmulo de proibir a entrada de noviços. Com isso, dentro de poucos anos estariam fechados todos os conventos e mosteiros do Brasil.



Corria entre os frades de Ipojuca que Deus, na sua bondade, daria um sinal àquele que devia morrer, para que bem se preparasse para a chegada da Irmã Morte. O frade que, pela manhã, encontrasse uma flor de Passiflora na seu lugar, na estala do coro onde se rezava Ofício Divino do Breviário, seria o próximo a morrer.



E assim ia morrendo um após outro, aquele que recebera a passiflora, sem que alguém o substituísse.



Aconteceu que, um belo dia, um dos frades, encontrou a Flor-da-Paixão (Passiflora ou flor do maracujá, como também se dizia) no lugar onde costumava sentar-se para a oração comunitária. Sem que ninguém o percebesse, colocou-a no lugar do seu vizinho, bem mais velho do que ele. Encontrando-a, aquele religioso levou-a ao lábios e ao coração com muita humildade. E aguardou serenamente a sua hora, já que andava sempre preparado. Daí a alguns dias entregou a sua alma em paz nas mãos d0 Criasdor. E assim aconteceu com os demais que se deparavam com a linda flor da Passiflora que vicejava no sítio do Convento. Por fim, só restava um frade: precisamente aquele que passara adiante a flor-da-paixão.



O nome desse frade? Só poderia ter sido aquele que, segundo o historiador Frei Venâncio Willeke, morrera na Bahia aos 24 de junho de 1890, Frei João de Santa Teresa, "o último, inquilino e morador do Convento de Santo Antônio de Ipojuca".



Adoecendo gravemente, não mais voltou a Ipojuca. Mas, por desabafo de consciência, ainda chegou a lançar no papel com letra já trêmula, a história que acabei de narrar. É uma suposição minha.



E como tive conhecimento dela, já que Frei Venâncio cala completamente esta história nas muitas páginas que dedicou ao Convento e aos frades de Ipojuca? Li-a num exemplar do Almanaque do Mensageiro da Fé que tive em minhas mãos há muitos anos passados e que não existe mais. Certamente era único exemplar da preciosa publicação franciscana, da falida Editora Mensageiro da Fé que tinha sua sede na Bahia.



Parece-me que o precioso manuscrito foi encontrado em sua mesa pelos que lhe prepararam o corpo para a sepultura.



E foi assim que se salvou a memória da Passiflora de Ipojuca.






Mas Deus, na sua Providência, não deixou também fechar para sempre o Convento de Santo Antônio de Ipojuca com o Santuário do Glorioso Senhor Santo Cristo: NO FINAL DO SÉCULO XIX CHEGAVAM DA ALEMANHA OS FRADES RESTAURADORES. E UMA VIDA NOVA TOMOU CONTA DE IPOJUCA.






Creio que hoje ninguém conhece essa história fora este frade que accaba de relatá-la.



E quem a escreveu mui belamente foi a colaboradora de Fr. Venâncio em seus trabalhos de história, Maria Odete, que usava o pseudônimo "Maria de Ipojuca".



Quando do meu paroquiato em Nossa Senhora do Bom Parto, em Campo Grande (Recife), visitei-a na Encruzilhada, onde morava. Tinha esperança que ela me contasse de "viva voz" a história da Passiflora de Ipojuca. Já não se lembrava de tê-la algum dia escrito e chegou a me afirmar nuna ter ouvido falar na tal Passiflora. Seria o "mal de Alzheimer" que a afetava e essa doença degenerativa a tornava incapaz de prestar-me o socorro que lhe fora pedir?



Conformei-me, mas disse-me com os meus botões: - "Não vou deixar morrer tão preciosa tradição." E aqui estou, prezado leitor, para lhe dizer que, se vier a encontrar uma Passiflora em meu lugar no coro, espero que Deus me ajude a não passá-la adiante. Mas a história não quero que se perca comigo. Passe-a adiante, sem receio.



E uma coisa tenho feito desde que aqui cheguei: deixar que não falte em nosso pomar, chamado também Santuário Ecológico Franciscano de Ipojuca, a passiflora edulis ou a mais rica em virtudes medicinais: a passiflora quadrangularis, o nosso marcujá-açu.









Frei José Milton de Azevedo Coelho, ofm.









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terça-feira, 22 de junho de 2010

GUERRA HOLANDESA - MÁRTIRES DA PARAIBA



Maurício de Nassau
A CONQUISTA DA PARAÍBA PELOS HOLANDESES

FREI MANUEL DA PIEDADE

“Na Paraíba entraram os holandeses aos 24 de dezembro de 1634. Encontraram a cidade deserta, porque os moradores, inclusive o Governador Antônio de Albuquerque, retiraram-se por falta de meios de defesa. Acompanharam-nos os religiosos, em cuja frente estava Frei Francisco de Santo Antônio [...]. O convento passou a servir de estalagem aos holandeses; só uma vez ou outra assistiram aí alguns religiosos.”[1]
“Na Paraíba tombou o primeiro mártir desta época, Frei Manuel da Piedade, que, com todo zelo, com o crucifixo na mão, confortava os soldados que defendiam o forte de Cabedelo.” [2] Morreu na frente de combate.

TOMADA DO CONVENTO FRANCISCANO

O que diz um relatório holandês sobre a tomada do convento franciscano da Paraíba, cujo nome eles mudaram para “Frederica”. A cidade, ao ser fundada, teve o nome de Nossa Senhora das Neves, “o qual nome e título se lhe deu por causa dos incômodos que passaram, de tormentas, chuvas e ventos, até o dia em que começaram a estabelecer-se aí e a construir casas [1585].”[3] Ao tempo do Domínio Espanhol passou a ser chamada Filipéia de Nossa Senhora das Neves, por causa de Filipe, Rei da Espanha, “até que por parte de Suas Altas Potências os Srs. Estados Gerais, o Príncipe de Orange e a Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais, foi tomada pelos capitães a seu serviço no Brasil [...}, porquanto então substituiu-se a denominação que tinha pela de Frederica ou Frederikstad, em virtude do nome de Sua Alteza o Sr. Príncipe de Orange, e por deliberação de todos foi posto aí o Conselheiro político Servaes Carpentier, como Diretor das duas Capítanias da Paraíba e Rio Grande.” [4]
Relata o autor da Descrição da Capitania da Paraíba, Elias Herckmans, que em Frederika [Paraiba] havia 6 igrejas e 3 conventos, sendo o Convento de S. Francisco “o maior e o mais belo”. O dos Carmelitas não estava ainda de todo acabado, mas os frades já moravam nele. O de São Bento também ainda estava em construção; quando os neerlandeses o ocuparam faltava-lhe o telhado. Os conventos dos beneditinos e dos franciscanos foram fortificados para a defesa holandesa.[5]

FREI MANUEL DE SANTA MARIA

“No ano de 1636, os frades [franciscanos] e particularmente o guardião, Frei Manoel de Santa Maria, tendo-se metido a escrever cartas a Matias de Albuquerque, governador do rei, as quais caíram em poder dos neerlandeses, expulsou-se da terra o Guardião; e como os soldados do rei, capitaneados por Francisco Rabelo, invadiram a Capitania, os frades de São Francisco foram retirados do convento em virtude da resolução tomada pelos Conselheiros Políticos. E o convento fortificado para servir de asilo e refúgio aos mercadores neerlandeses em ocasião de necessidade.”[6]
Todos estes franciscanos certamente tiveram a mesma sorte daqueles que foram embarcados para as Ilhas de Espanha (Antilhas).
[1] MUELLER, Fr. Bonifácio, Apud Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil – Edição comemorativa do Tricentenário – 1657 – 1957”, Volume I, Provincialado Franciscano, Recife / PE, 1957, pg. 90.

[2] Id. Ibd. pg. 185 . Conf. também: Província... pg. 90 e Administração da Conquista p. 65.
[3] Da Descrição Geral da Capítania da Paraíba, de Elias Herckmans, transcrito e comentado por MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 64 e pg. 110, nota 5, para o citado ano de 1585,
[4] MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 64 – 65.
[5] Da Descrição Geral da Capítania da Paraíba, de Elias Herckmans, transcrito e comentado por MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 65 – 66.
[6] Da Descrição Geral da Capítania da Paraíba, de Elias Herckmans, transcrito e comentado por MELLO, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, 2ª Edição, Governo de Pernambuco, Recife / 2004, pg. 65

GUERRA HOLANDESA: O MARTÍRIO SE ESTENDIA AOS MILITARES E A TODA A POPULAÇÃO

PERSEGUIÇÃO GENERALIZADA AOS CATÓLICOS
Vejamos o relato de Fr. Manoel Calado: “No tempo que veio a armada do Conde da Torre a estas costas, tendo os do Supremo dado passaportes aos Frades de Santo Antônio [franciscanos] e São Bento e do Carmo que serviram de confortar e animar a estes cativos, e por de todo os desconsolar sem respeitarem os ditos passaportes, os embarcaram dizendo que iam para as Índias [de Castela], sendo cousa certa mandá-los martirizar, lançados vivos ao mar com pedra nos pés, como fizeram aos mais dos nossos soldados prendidos do Arraial Velho, ficando alguns poucos Clérigos tão atemorizados, que por nenhuma maneira ousavam celebrar missa, nem meter-se em nenhum outro ato de Cristandade.” [1]
Note que também os soldados cristãos passaram pelo martírio.
Mas toda a população se via desprotegida da sanha dos holandeses.
Frei Calado prossegue:
Para a assolação de toda a Província [Capitania], inventaram e inovaram vária diversidade de ofícios, a saber, Escoltetos e Financeiros, que nenhum outro cargo executavam mais que argüir aos pobres moradores de tudo aquilo que lhe ditava a imaginação para condenarem para si, usando de seus poderes com os maiores insultos do mundo, até tomarem as mulheres casadas com força e violência e usarem delas por rmancebas, tendo-as e mantendo-as em suas casas, como o fez o Escolteto Alado Holl das freguesias de Ipojuca e Santo Antônio do Cabo, a uma mulher de um homem muito honrado, que tudo era patente aos do Conselho, e em nada queriam prover pelas interessadas conveniências que tinham com a maldade de seus procedimentos.” [2]
Frei Calado continua a enumerar detalhadamente os crimes que eram apadrinhados pelos Conselheiros do Recife e seus Ministros em toda a Capitania, crimes em que rivalizavam como autores “o Judaísmo e o Holandês” (Flamengos e Judeus): a exploração das dívidas dos senhores de engenho, o roubo no comércio do açúcar, privando-os daquilo a que tinham direito pelos contratos, a ponto de perderem todos os seus bens para se livrarem, em vão, das “dívidas” impagáveis... Chegou ao ponto de a Companhia das Índias Ocidentais combinar com os devedores de deixarem por conta dela a solução dos seus débitos junto aos judeus e outros mercadores; a Companhia agiu tão fraudulentamente que ficaram estes a dever mais a ela que àqueles.
Afirma Frei Calado: os Ministros Holandeses inventaram que os moradores tramavam um levante e, para impedi-lo, escolheram “o mais tirano homem [...], por nome João Blar, que com 300 soldados campeasse no sertão [Interior], aonde fez tais roubos, estupros e violências quais se não historiarão dos mais cruéis Imperadores romanos.” [3] E relata o que se passou em São Lourenço e outras freguesias: assassinato de todos os homens de uma mesma casa, defloramento de donzelas que morriam vendo os pais e irmãos mártires, debatendo-se entre a vida e a morte no próprio sangue inocente.
Acresce as profanações dos templos, os sacrilégios contra as imagens dos santos, especialmente da Santíssima Virgem.
Tudo isto provocou uma profunda dor aos luso-brasileiros. Imploraram à Mãe de Deus que ela os ajudasse a encontrar, “com armas nas mãos”, remédio e proteção contra tão grandes males.
“E assim elegemos por Governador de nossa liberdade a João Fernandes Vieira. [...] E porque [...] nos pusemos em arma com nosso Governado, [...] e nos fomos retirando de mato em mato [em guerrilha], avisando de tudo ao Governador e Capitão Geral do Brasil Antônio Teles da Silva, de quem, por sua cristandade, por seu valor e por seu sangue, esperávamos breve socorro”. [4]
[1] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, p. 296.
[2] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, pgs. 296 -297..
[3] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, p. 299.
[4] CALADO, Fr. Manoel, O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, I º Volume, Recife, 1942, p. 300.

GUERRA HOLANDESDA - TESTEMUNHO DOS MÁRTIRES FRANCISCANOS



Convento de Igaraçu
Pintura do artista holandês Post





O cerco de Olinda em 1630




TESTEMUNHO DE FREI JOÃO DA CRUZ, DE FREI JUNÍPERO DE S. PAULO E MUITOS OUTROS

Bandeira da Nova Holanda

Na noite de 30 de abril de 1632, 1500 holandeses guiados por Calabar invadiram Igarassu. Era o dia dos Apóstolos S. Filipe e S. Tiago e havia missa festiva no convento franciscano. Uma mulher gritou que os holandeses estavam chegando. O celebrante consumiu logo a hóstia e as partículas consagradas enquanto os outros frades tratavam de esconder as alfaias os vasos e os objetos sagrados. O povo ainda estava na igreja quando os hereges a tomaram e levaram presos o celebrante e um frade velho que não pôde correr. Estes dois foram levados de canoa para Itamaracá foram desterrados para as Indias Espanholas (Antilhas).

O Guardião Frei Pedro da Purificação fugiu com os demais frades. O convento ficou abandonado até 1635, quando foi nomeado Guardião para um triênio, Frei Antônio de Sã Paulo. Terminada a sua gestão, sucedeu-lhe Frei João da Cruz. Foi quando aconteceu o caso das correspondências mandas por Frei João da Cruz pelo Irmão leigo Frei Junípero para Frei Cosme de São Damião e outros frades que se encontravam na Bahia “sem licença nem passaporte dos Senhores do Conselho”, como diz Fr. Bonifácio. Até à Bahia correu tudo em paz. Mas na volta, em princípios de 1639, o portador Frei Junípero foi descoberto com as respostas às cartas. Isto acarretou uma ordem de prisão para ele e seu Superior Frei João da Cruz. Provaram pelo conteúdo das respostas que a correspondência só tratava de assuntos internos da Ordem. De nada valeram as justificativas. Foram condenados à forca pelo Conselho. Mas, por intervenção de pessoas da simpatia do Conde Maurício de Nassau, a pena foi comutada em degredo. “Admira que, dois anos depois, alguém tivesse coragem de se dirigir a Nassau no intuito de conseguir a volta do mesmo Frei João da Cruz.” Não só dele, mas também de seu companheiro Frei Francisco de Santo André. A carta se conserva no arquivo de Aya, escrtita em Lisboa com data de 14 de março de 1642, assinada por M. de Montalvão. Fr. Bonifácio a transcreve. “Parece [poderia ter dito ´é certo´] que Frei João da Cruz voltou sempre ao Brasil, pois Frei Manoel Calado, que no Valeroso Lucideno se ocupa com o mesmo caso, conta no Iº Volume o fato acima narrado, e, no IIº Volume (pg. 45) conta o seguinte:“Este Frei João era Pregador e havia sido degredado com outros religiosos (que todos morreram no mar à mão dos holandeses) e ele escapou, porque foi para a Holand“O convento de Igarassu ficou deserto até a completa restauração em 1654.” Foi quando, nesse ano de 1639, o Conselho, em reação a benevolência de Nassau, deu expansão aos sentimentos anticlericais, recolhendo na ilha de Itamaracá franciscanos de todos os outros conventos e também religiosos de outras Ordens (beneditinos e carmelitas). “Teriam sido 37 ao todo, e dixaram-nos despidos e maltratados durante um mês. Em seguida todos, inclusive Frei João da Cruz e Frei Junípero, foram transportados para as ilhas da América Espanhola [ou Índia de Castela = Antilhas]. Neste trajeto alguns morreram à míngua, outros sucumbiram aos maus tratos e, dos que escaparam, poucos voltaram à Custódia.” Frei Calado conta como terminaram muitos deles: jogados ao mar com pedras atadas aos pés! Poderiam todos ser canonizados, como foram beatificados os do Rio Grande do Norte!