sexta-feira, 12 de junho de 2009

IPOJUCA - OS HOLANDESES E A POLUIÇÃO AMBIENTAL

POLUIÇÂO AMBIENTAL
POBLEMA SECULAR

O Município de Ipojuca conta hoje com uma Secretaria de Ciência-tecnologia-e meio ambiente (SECTMA).
O problema não vem só do aquecimento global..
Quando o Brasil estava sob o domínio espanhol o Rei já tomava providências para que não se poluíssem os rios da Zona da Mata de Pernambuco.
Vejamos o que nos dizem alguns relatórios holandeses:
No Documento 4 (pgs. 147 – 190), estampado por Dr. José Antônio Gonçalves de Mello em sua obra Administração da Conquista [1] “notas do que se passou na minha viagem, desde 15 [sic] de Dezembro de 1641 até 24 de janeiro do ano seguinte de 1642”, se registra:

“A 18 do mesmo mês [dezembro] ao amanhecer, cavalguei para Ipojuca [...] (pg. 151)


“Ali também recebi queixas de que alguns engenhos lançavam o bagaço aos rios, com o que conspurcavam as águas. Soube que ao tempo do Rei de Espanha foram dadas ordens a este respeito e mesmo que alguns moradores ainda têm cópia dos editais. Determinei ao Escolteto Hol procurasse os ditos editais e no-los enviasse para ser resolvido o que conviesse ao caso [...] (pg. 152).
Dr. José Antônio nos remete à Nota 12 de fim de texto (Documento 4):
“Interessante referência ao início da poluição dos rios da zona da mata pernambucana pela indústria açucareira, que viria a agravar-se no século XIX com os engenhos centrais e as usinas. Em 4 de março de 1644 foi publicado edital proibindo lançar-se nos leitos e embocaduras dos rios quaisquer imundícies: ARA, OWIC 70, dag.notule da data acima.”
Já que o assunto é poluição mesmo Documento 4 (pgs. 147 – 190), na visita a Santo Antônio do Cabo [Cabo de Santo Agostinho], se registra a 17 de dezembro de 1641:
“A 17 viajei para Santo Antônio do Cabo... (pg. 148) [...] Entendi-me com Martinus de Coutre sobre prestações vencidas da compra de seu engenho (p. 149). [...] Também alguns senhores de engenho e moradores de Santo Antônio [do Cabo] se quixaram de que a água ou rio ali era conspurcado por outros senhores de engenho, que nele jogavam o bagaço [de cana], o que era causa de muitas doenças. Ordenei a [não indica] que redigisse um edital proibindo o abuso, para ser apresentado para exame a S. Ex.a e ao Alto Conselho” [2] (p. 150).


[1] Apud, Mello, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, Companhia Editora de Pernambuco – CEPE – Recife, 2004, pp. 148 - 152).
[2] Apud, Mello, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, Companhia Editora de Pernambuco – CEPE – Recife, 2004,
E a Nota 17 a este trecho nos remete à mesma Nota 12.

IPOJUCA ENGENHOS DA REGIÃO

Santo Antônio dos Montes (Engenho Velho) – Com a palavra agora o historiador Fernando Pio, em seu escrito “A Caminho da Histórica Ipojuca”, no livro Resumo Historico do Convento de Santo Antonio e do Santuario do Senhor Santo Christo de Ipojuca, edição comemorativa do Jubileu do Santuário *1663 – 1938), organizado por Frei Venâncio Willeke, Ipojuca, 1938, pp.16-17:
“ Interessante a lenda que nos refere Jaboatão no seu Novo Orbe Seráfico a respeito desta igrejinha: conta-nos o cronista franciscano que a milagrosa imagem de Santo Antônio, ali venerada, fora encontrada em plena mata. Não existindo, ainda, naquela época, capela ou igreja no engenho, levaram a imagem para a capelinha de São José, nas imediações da cidade do Cabo. Qual não foi a surpresa, entretanto, no dia seguinte, ao constatarem, que a imagem já não se encontrava no altar em que fora colocada. E onde estava a imagem? Em plena mata, no mesmo local em que vivia anteriormente.... Pela segunda vez repuzeram-na em seu altar na igrejinha de São José. Novamente a imagem desapareceu. E voltou ao seu pouso primitivo. Uma terceira tentativa ainda foi experimentada. Novo insucesso. Compreenderam, assim, os moradores do engenho que o santo havia escolhido por habitação de sua imagem aquele local e, deste modo, apressaram-se a levantar, sem demora, a sua capelinha. E esta é a igrejinha que avistamos com o sugestivo título de Santo Antônio dos Montes do Engenho Velho. ”
Mas vamos um pouco adiante na narrativa de Fernando Pio. Santo Antônio dos Montes do Engenho Velho é um engenho muito ligado a história do célebre Frei Cosme de São Damião, e. portanto, ao Convento de ipojuca:
“Foi neste engenho que antes de abraçar a vida franciscana viveu durante sete anos o piedoso Frei Cosme de São Damião.
Filho de colonos portugueses, dedicou-se, na mocidade, à vida agrícola e, conforme nos refere Jaboatão, do campo à casa de purgar Cosme Manuel, o mancebo, pelo seu bom gênio officioso e devoto já demonstrava a piedosa vocação religiosa que o faria amanhã o estimado frade franciscano.
Até há poucos anos, existia neste referido engenho um retrato a óleo de Fr. Cosme de São Damião.”
Falando sobre este engenho a uma paroquiana de Ipojuca, ela me contou que o tal engenho fica em Ponte dos Carvalhos, e que, quando criança, foi com seus pais visitar a Capela do Engenho, levados pela devoção a Santo tão milagroso, que escolhera aquele lugar para morar.
Segundo Josias, fica no Cabo de Santo Agostinho, após a Destilaria do Cabo, sentido Recife (lado esquerdo).


Jurissaca –Este engenho ficava no Município do Cabo. Vem do início do século XVII, conforme Fernando Pio. Num alto, mais à frente encontram-se as ruínas de uma capelinha dedicada a São Gonçalo, célebre pelo fato de alguns restauradores pernanbucanos terem promovido aí as primeiros reuniões com o fito de expulsar os invasores holandeses. Na época em que Fernando Pio redigiu este escrito, a capelinha não podia ser vista da estrada, pois se erguia no meio da mata. Será que ainda existe em nossos dias? De acordo com Sebastião Galvão, o dito engenho pertencia a João Paes Barreto, tinha uma capela sob a invocação de São João Batista instituída primitivamente em1626. João Paes Barreto foi o fidalgo português que se destacou entre os colonizadores das terras do Cabo de Santo Agostinho e da Vila de Santo Antônio do Cabo. Veio para Pernambuco ainda bem jovem e solteiro em 1557. Casou-se com Dona Inês Guardez de Andrade, filha do rico colono Francisco Carvalho de Andrade. “De posse das doações de grandes lotes de terra, fundou ele um engenho a que deu o nome de Madre de Deus, situado em uma légua de terra, - à margem do rio Arassuagipe nos brejos do Cabo de Santo Agostinho – e sucessivamente os de Jurissaca, Algodoais, Trapiche, Guerra, Ilha e Santo Estêvão. Em 28 de outubro de 1580, instituiu João Paes Barreto um morgado [...] conhecido depois por Morgado dos Paes ou do Cabo. O engenho Madre de Deus veio a chamar-se também Engenho Velho.
Algodoais – Engenho sem expressa histórica, segundo Fernando Pio merendo ser lembrado por guardar em sua capela um altar “lembrando o gótico”, (!) que pertenceu ao Santuário do Santo Cristo de Ipojuca e que, depois do incêndio deste templo, foi para ali transferido, como doação do Rev. Frei Venâncio, Guardião do Convento de ipojuca”. Deve ter sido um dos altares de madeira construído pelos frades alemães restauradores, como os que vemos na fotos da igreja incendiada. Segundo Sebastião Galvão, era um engenho “no Município do Cabo, fundado por Miguel Paes antes da invasão holandesa, fica ao Sul as sede e tem uma capela dedicada a S. Francisco”.[1] À época da referida doação aquele engenho pertececeria à Freguesia de São Miguel de Ipojuca? Outra pergunta: e como explicar o altar tipo “gótico” que ainda hoje se vê na capela restaurada do Engenho Penderama? Certamente foi para lá após o incêndio da igreja do Convento. Das duas uma: ou Fernando Pio se enganou ao dar como destino daquele altar a capela de Algodoais e não a de Penderama, ou esta última teria merecido também um dos altares da igreja do Senhor Santo Cristo. Fica, porém, um problema a ser resolvido, pois consta que todos os altares da igreja do Convento foram destruídos pelo incêndio. Defendo a hipótese que seriam os antigos altares (não mais os primitivos) que os alemães encontraram e dele se desfizeram para dar lugar aos novos, góticos, que vemos nas fotos de antes do incêndio. Mas é, de qualquer forma, estranho que fossem altares “góticos” e não barrocos como deveriam ser, e como, por sinal, o é o altar-mor da Matriz de Miguel, que fora do Convento para lá, como reza outra tradição.
[1] GALVÃO, Sebastião de Vasconcellos, Dicionário Corográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco, Edição fac-similar, Governo de Pernambuco, Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), Recife, 2006, Volume I, 2.a Edição, p. 20.

ENGENHOS DE IPOJUCA E OS HOLANDESES

POLUIÇÂO AMBIENTAL
POBLEMA SECULAR

O Município de Ipojuca conta hoje com uma Secretaria de Ciência-tecnologia-e meio ambiente (SECTMA).
O problema não vem só do aquecimento global..
Quando o Brasil estava sob o domínio espanhol o Rei já tomava providências para que não se poluíssem os rios da Zona da Mata de Pernambuco.
Vejamos o que nos dizem alguns relatórios holandeses:
No Documento 4 (pgs. 147 – 190), estampado por Dr. José Antônio Gonçalves de Mello em sua obra Administração da Conquista [1] “notas do que se passou na minha viagem, desde 15 [sic] de Dezembro de 1641 até 24 de janeiro do ano seguinte de 1642”, se registra:

“A 18 do mesmo mês [dezembro] ao amanhecer, cavalguei para Ipojuca [...] (pg. 151)


“Ali também recebi queixas de que alguns engenhos lançavam o bagaço aos rios, com o que conspurcavam as águas. Soube que ao tempo do Rei de Espanha foram dadas ordens a este respeito e mesmo que alguns moradores ainda têm cópia dos editais. Determinei ao Escolteto Hol procurasse os ditos editais e no-los enviasse para ser resolvido o que conviesse ao caso [...] (pg. 152).
Dr. José Antônio nos remete à Nota 12 de fim de texto (Documento 4):
“Interessante referência ao início da poluição dos rios da zona da mata pernambucana pela indústria açucareira, que viria a agravar-se no século XIX com os engenhos centrais e as usinas. Em 4 de março de 1644 foi publicado edital proibindo lançar-se nos leitos e embocaduras dos rios quaisquer imundícies: ARA, OWIC 70, dag.notule da data acima.”
Já que o assunto é poluição mesmo Documento 4 (pgs. 147 – 190), na visita a Santo Antônio do Cabo [Cabo de Santo Agostinho], se registra a 17 de dezembro de 1641:
“A 17 viajei para Santo Antônio do Cabo... (pg. 148) [...] Entendi-me com Martinus de Coutre sobre prestações vencidas da compra de seu engenho (p. 149). [...] Também alguns senhores de engenho e moradores de Santo Antônio [do Cabo] se quixaram de que a água ou rio ali era conspurcado por outros senhores de engenho, que nele jogavam o bagaço [de cana], o que era causa de muitas doenças. Ordenei a [não indica] que redigisse um edital proibindo o abuso, para ser apresentado para exame a S. Ex.a e ao Alto Conselho” [2] (p. 150).

[1] Apud, Mello, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, Companhia Editora de Pernambuco – CEPE – Recife, 2004, pp. 148 - 152).
[2] Apud, Mello, José Antônio Gonçalves de, Administração da Conquista, II, Companhia Editora de Pernambuco – CEPE – Recife, 2004,
E a Nota 17 a este trecho nos remete à mesma Nota 12.

ENGENHOS DE IPÓJUCA E OS HOLANDESES

EGENHOS DA FREGUESIA DE IPOJUCA
CONFORME RELATÓRIO HOLANDÊS
DOS ANOS DE 1637 A 1639. Documento 5,[1]

Citemos alguns:

- Engenho Sibiró de Baixo, com invocação de São Paulo.
Pertencente a Francisco Soares Canha (sic). Engenho d´água. Em funcionamento (“moente”).
- Engenho Sibiró de Cima. De Manoel de Navalhas, ausente. Foi confiscado e vendido a João Carneiro de Mariz. Engenho movido a água. Funcionando.







ENGENHO MARANHÃO


-Engenho Maranhão. Confiscado. O seu dono, João Tenório, se passou para os holandeses, mas teve que compra-lo (!). É d´água e moente.

Foto do Engenho Maranhão, hojem em completo abandono:





- Engenho Coroaçu. Pertencente a Manoel Vaz Viseu que se passou para os holandeses. Era movido a água, em funcionamento.
- Engenho Bertioga. Foi confiscado e vendido a seu proprietário, João Tenório, que ficou do lado dos holandeses.
Estava em funcionamento, movido a água.
- Engenho Nossa Senhora do Rosário. Confiscado e vendido a João Carneiro de Mariz. É movido a água e está em funcionamento.
- Engenho Bom Jesus, chamado também Trapiche, a água e mo ente. Confiscado e vendido a Duarte Saraiva.
- Engenho Guerra, movido por bois, em funcionamento. Algumas partes deste engenho foram confiscadas e vendidas ao Sr. Hendrick Schilt.
- Engenho São João Salgado. Pertenceu a Cosme Dias, que reside entre os inimigos dos holandeses. Confiscado e vendido a Mateus da Costa. É de bois e estava parado.
- Engenho Pindoba. Pertenceu a Gaspar da Fonseca Carneiro e estava nas mãos de seu filho. É d´água e em funcionamento.
- Engenho Santa Luzia, confiscado e vendido a Amador Araújo. É d´água e moente.

EGENHOS DA FREGUESIA DE IPOJUCA
CONFORME RELATÓRIO HOLANDÊS
DE 4 DE ABRIL DE 1640. DOCUMENTO 6. [2]

- Engenho Cocaú. Pertenceu a Antônio Gonçalves da Paz. Foi confiscado. Acha-se destruído e ainda não foi vendido.
- Engenho da Guerra, pertencente a Jacobus Corderus e Baltasar Wijntgens. Engenho de bois. Em funcionamento.
- Engenho São João Salgado, agora pertencente a Duarte Saraiva.
- Engenho Aratangil, de Miguel Fernando de Sá. De água, moendo.
- Engenho Pantorra. , de Nicolas D´ Haen, L´Empereur & Cia. Inteiramente arruinado. Está sendo restaurado e replantado para moer no ano vindouro.
- Engenho Santa Luzia ou Tabatinga, ut supra.
[1] Apud MELL O, José Antônio Gonçalves de, A Economia Açucareira, I, 2.ª edição, Recife, 2004, pp. 83 ss.
[2] Apud MELL O, José Antônio Gonçalves de, A Economia Açucareira, I, 2.ª edição, Recife, 2004, pp.142 a 143,

PARÓQUIA DE S. MIGUEL DE IPOJUCA OS ENGENHOS DURANTE A OCUPAÇÃO HOLANDES

DO DOCUMENTO 4 DOS RELATÓRIOS HOLANDESES:
INVENTÁRIO DE TODOS OS ENGENHOS SITUADOS ENTRE O RIO DAS JANGADAS E O RIO UMA, EM PERNAMBUCO, FEITO PELO CONSELHEIRO WILLEN SCHOTT EM 1636. [1]
- Sobre o Engenho Tabatinga: “Engenho de Tabatinga, de Santa Luzia, pertencente a Cosme Dias da Fonseca, que fugiu, situado calculadamente duas milhas distante do Cabo. Mói com água e tem um belo açude. A casa de purgar e a casa das caldeiras são de alvenaria, mas muito velhas e começam a decair. Tem também cerca de uma milha e meia de terra com uma boa várzea, bem plantada com canavial, que anualmente pode produzir cerca de 5.000 a 6.000 arrobas de açúcar; as caldeiras e os tachos foram todos retirados.” [2]
- Sobre o Engenho dos Salgados: “... do mesmo Cosme Dias, situado uma milha e meia distante do antes citado engenho, tem cerca de uma milha de terra, na maioria várzeas, das quais se obtêm boas canas.. Mói com bois e tem duas moendas e, pela comodidade do rio Ipojuca, que corre bem perto, pode moer o ano inteiro. Tem fornecido 5.000 arrobas e paga de recognição 30 arrobas de açúcar branco e encaixado; a casa de purgar tem paredes de taipa, mas está totalmente destruída, como também as moendas; as caldeiras foram retiradas e escondidas.” [3]
- Sobre o Engenho São Paulo: “... situado um quarto de uma milha ao noroeste do acima mencionado dos Salgados. Pertence a várias pessoas, entre as quais Pedro da Grand, que como maior participante é o feitor-mor; os outros donos fugiram e alguns moram em Portugal. Em nome deles o citado da Grand obrigou-se a dar boa conta do engenho. Este mói com bois e tem 600 vaden de terra em quadra, parte da qual é plantada com cana, enquanto a outra parte consiste de pastos, mas não tem matas e por isso tem que comprar toda a amadeira, o que é muito oneroso. Pode anualmente fornecer 2.000 a 3.000 arrobas de açúcar, e paga 2 por cento de recognição.” [4]
- Sobre o Engenho Bom Jesus: “... pertencente a Dona Isabela de Moura. Está situado perto do supra citado engenho e a um quarto de milha distante de São Miguel de Ipojuca. Tem uma moenda de água e uma de bois; a casa de purgar e a casa da proprietária estão totalmente desmoronadas, mas a casa na qual estão as moendas ainda é nova. Este engenho tem duas milhas de terra, com muitos vales e lindos canaviais, como também madeira pastos para os animais. Pode anualmente fazer 9.000 a 10.000 arrobas de açúcar e paga de recognição 30 arrobas de açúcar branco e encaixado. Na casa de purgar foram encontrados 172 formas, das quais alguma quebradas, as quais renderam 155 arrobas de açúcar mascavado, que foram encaixados em 14 caixas. Numa barraca cerca de uma milha e meia distante foram ainda encontradas 9 caixas de um particular que tinha fugido.” [5]
- Engenho Bertioga: “... situado a um quarto de milha distante do citado engenho Nossa Senhora da Conceição; pertence a Luís Lopes Tenório, que fugiu com Albuquerque; (...) pode anualmente fazer 3.000 a 4.000 arrobas de açúcar e paga 3 por cento de d recognição...” [6]
-Engenho Maranhão: “... situado meia milha distante do referido engenho Três Reis, pertencente a um certo castelhano João Tenório, que fugiu com Albuquerque (...). Mói co água e pode anualmente produzir 2.000 a 3.000 arrobas de açúcar e paga 3 por cento de recognição...” [7]
- Engenho Pindoba: “... situado duas milhas distante de Ipojuca, pertencente aos órfãos de Gaspar da Fonseca, dos quais o filho mais velho se encontra aqui e as filhas estão num convento em Portugal. Tem uma moenda de água e outra de bois, um belo açude e cerca de meia milha de terra, na qual está uma várzea tão bem plantada que anualmente o engenho pode fornecer 3.000 a 4.000 arrobas de açúcar; paga a recognição de 50 arrobas de açúcar branco e 30 arrobas de açúcar mascavado encaixados. De uma barraca, situada em torno desse engenho, foram conduzidas para a Companhia 17 caixas de açúcar branco e mascavado,” [8]
[1] Apud MELL O, José Antônio Gonçalves de, A Economia Açucareira, I, 2.ª edição, Recife, 2004, pp. 47 ss.; sobre Ipojuca: pp. 61 ss.
[2] Id. Ibd. p. 61.
[3] Id. Ibd. p.61.
[4] Id. Ibd. p. 61. Vadem: “medida de comprimento: um vadem de Amsterdã = 1, 698 m; idem renano = 1.88 m.” Id. Ibd. pg. 61, nota (*).
[5] Id. Ibd. pp. 61 a 62.
[6] Id. Ibd.62.
[7] Id. Ibd. 63
[8] Id. Ibd. p. 64.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

IPOJUCA E O SANTUÁRIO DO SENHOR SANTO CRISTO

9. REENTRONIZAÇÃO DO SENHOR SANTO CRISTO


“Em 15 de agosto de 1935 a Capela-mor estava coberta, foi lançada a Primeira Pedra do Altar-mor e a 29 de agosto de 1937 foi concluído o Altar-mor onde repousa até hoje e por todos os tempo a imagem de Santo Cristo”.

“Na Primeira Pedra do altar-mor da reconstrução do convento consta a seguinte inscrição:
Louvado seja o Santíssimo nome de Jesus
No ano da Redenção de 1935, sendo sua Santidade Pio XI Sumo Pontífice da Igreja”.


“Dois anos de luta na reconstrução do templo. Até que no dia 29 de agosto de 1937 o Senhor Santo Cristo era reentronizado no seu altar bendito.
Para conhecermos a quantidade infinita de graças alcançadas pelos católicos através de súplicas feitas ao Senhor santo Cristo, bastará uma ligeira visita à sala dos milagres junto ao santuário. Ela nos patenteará a proteção dispensada pelo Senhor Santo Cristo de Ipojuca a todos aqueles que, com fé, lhe confiam os seus pedidos. Para melhores informações sobre o Convento franciscano e o santuário do Sr. Santo Cristo de Ipojuca procurar a obra de Fr. Venâncio Willeke “O Santuário do Senhor Santo Cristo de Ipojuca” [1]

“Desde a Festa do Senhor Santo Cristo em 01-01-1936, a imagem milagrosa ocupa o altar-mor, ficando na capela lateral [antiga Capela do Senhor Bom Jesus] a imagem do Sagrado Coração de Jesus.” [2]
Teria sido a partir de então que a igreja do Convento, como este, dedicada a Santo Antônio, passou a ser “Santuário do Senhor Santo Cristo”?
Escreve Maria de Ipojuca (Odete):
“Foram três anos de lutas renhidas, de combates acerbos. Mas, graças à colaboração de generosos benfeitores, já estão vencidos os obstáculos principais. [...] De todo o Brasil, associando-se a tão nobre obra, chegam as esmolas preciosas. Compreenderam ser o Santuário de Ipojuca, um Santuário Nacional!” [3]
Com certeza Frei Venâncio se valeu da ocasião para dar ao templo, o título que competia à Capela do Bom Jesus, no jubileu da mesma: 1663.
O título que ele deu ao livro já diz tudo: Convento de Santo Antônio e Santuário do Senhor Santo Cristo de Ipojuca.
Quais os trâmites legais que ele teria usado para isto não conhecemos. Não é simples mudar o orago de um templo quase (na época) quatro vezes centenário. Hoje, até o Convento de Santo Antônio é conhecido como Convento do Senhor Santo Cristo. Até a festa de Santo Antônio passou a segundo plano face à festa do Senhor Santo Cristo. O trezenário pasou a simples Tríduo e até a Missa festiva não é mais festiva que uma missa dominical!
Videant cônsules!

Resta dizer que, da antiga igreja, só foram poupados pelas chamas se 1935 as estalas do coro dos religiosos; “embora ficasse tostada a camada superior, pôde ser novamente aproveitada depois de limpa e envernizada”. [4]
“No recinto da igreja, a arte primitiva desapareceu por completo, devido aos estragos do fechamento temporário [o Convento ficou sem moradores no final do século XIX até à chegada dos frades restauradores da Saxônia] e do incêndio de 1935. As campas sepulcrais cederam lugar ao mosaico que Frei Eugênio colocou durante a sua segunda gestão de 1904 a 1907.” [5]

A FESTA DO SENHOR SANTO CRISTO

Escreve Frei Venâncio:
“A festa principal do Senhor Sant0o Cristo deve remontar aos primeiros anos da devoção ipojucana. [...] Sobre a solenidade máxima do santuário ipojucano, lemos a lacônica notícia: Celebra-se a festa do Sr. Sto. Cristo ao primeiro do ano, dia do nome de Jesus e deve ter tido lugar sem interrupção porque a crônica franciscana, tão parca em referir algo do santuário, não pôde deixar de noticiar o acontecimento verificado durante a gestão do guardião Frei José de Santa Maria: ´A 1º de janeiro de 1848, não pôde ser celebrada a festa tradicional, porque neste tempo tornou-se o convento quartel de tropas, houve tiroteio no mesmo convento e o Senhor Francisco do Rego Barros converteu-o também em prisão.´” [6]
Francisco do Rego Barros (Conde da Boa Vista) por duas vezes ocupou a presidência da Província de Pernambuco, segundo Pereira da Costa: “A primeira, de 2 de dezembro de 1838 a 3 de abril de 1841 [...]; a segunda, de 7 de dezembro de 1841 a 13 de abril de 1844 [...]. [7]
Sua intervenção em Ipojuca só pode ter acontecido durante a Revolução Praieira, quando ele exercia o cargo de Comandante Superior da Guarda Nacional no Recife.[8]

É sempre celebrada 1º de janeiro, com novenário aberto com o hasteamento da bandeira a 22 de dezembro.
Durante o Novenário toda a Comunidade Paroquial se mobiliza em ação missionária: visita aos doentes, às escolas, às periferias. Todas as noites há caminhada de um ponto da cidade para o Convento. Após a novena, há apresentação de danças folclóricas, pastoris de crianças e adultos, apresentações de corais, barracas...
No dia da festa:
O5h00: Alvorada festiva.
10h00: Missa Solene
16h00: Procissão e Missa de encerramento.

Serviços dos andores e altares:

Altares: Família responsável.
Andor de Santo Cristo: Devotos e devotas.
Andor de Nossa Senhora: Família responsável.
Andor de São Benedito: Devotos e devotas.

Quanto aos andores, vale lembrar a tradição sobre o de São Benedito. Escreve Fr. Venâncio:

“Fiel à tradição secular, Ipojuca festeja o santo preto a 31 de dezembro, véspera da solenidade do Sr. Santo Cristo, realizando-se dias antes a famosa festa de S. Benedito no vizinho engenho de Massangana, onde Joaquim Nabuco se apaixonou pelo ideal abolicionista.
Até o presente [1956], é a imagem de S. Benedito que abre o préstito nas grandes procissões de Ipojuca, preito de gratidão para com o humilde Irmão franciscano, cuja popularidade contribuiu de modo particular para irmanar as duas raças principais que hoje povoam o Brasil.” [9]


[1] PIO, Fernando Pio, O Convento de Santo Antônio do Recife e as Fundações franciscanas em Pernambuco, Recife, 1939, p. 69 -70.
[2] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, nota 14 ao Cap. XI, p. 88.
[3] Apud WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Resumo Histórico do Convento de Santo Antônio e do Santuario do Senhor Santo Christo de Ipojuca, edição commemorativa do Jubileu do Santuário : 1663 – 1938”, Ipojuca, Editores: Religiosos Franciscanos, Ipójuca, Pernambuco, 1938, p. 43.
[4] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, nota 14 ao Cap. XI, p. 66.
[5] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, nota 14 ao Cap. XI, p. 66.
[6] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, nota 14 ao Cap. XI, p. 40.
Conf. as notas 8 e 9 ao Cap. XII, à pg. 89 nos remetem a Jaboatão: Jab. , III, 511, 512.
[7] COSTA, F. A.. PEREIRA da, Dicionário Biográfico dePpernambucanos Célebres, p. 388.
[8] COSTA, F. A.. PEREIRA da, Dicionário Biográfico dePpernambucanos Célebres, p. 389.
[9] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, p. 47.

CONVENTO DE IPOJUCA - MAIS OBRAS DE ARTE - OS INCÊNDIOSS

5. PINTURAS ANTIGAS NO INTERIOR DO CONVENTO

No interior do Convento, existem ainda quadros antigos, [de autores anônimos] de épocas diversas. O claustro conserva quatro painéis de um só autor, provavelmente da segundametade do século XVIII [hoje se encontram no refeitório]. Representam as seguintes cenasreproduzidas em vários conventos franciscanos:
1º) o chamado milagre da mula, realizado por intercessão de Santo Antônio; 2º) S. Francisco de Assis ressuscitando o recém-falecido D. Pedro Dias, bispo da cidade de Rodrigo; 3º) 0 martírio dos primeiros missionários franciscanos, SS. Bernardo, Pedro, Acúrsio, Adjuto e Odon, degolados em 1220 pelos maometanos em Marrocos; 4º) o martírio do bem-aventurado João do Prado, em 1631, morto a fogo, flexa e espada.
À entrada do refeitório, vêm-se dois quadros menores, de Nossa Senhora e S. José, que antigamente encimavam a cômoda da sacristia. Datam de meados do século passado [século XIX], e foram provavelmentecolocados por Frei Antônio da Rainha dos Anjos, quando da restauração da sacritia, entre 1850 e 1852 [quando a sacristia era por trás da Capela-Mor].
No refeitório figura em tamanho grande a Última Ceia, trabalho bem conservado, que remonta ao século XVIII.” [1]


7. O PRIMEIRO INCÊNDIO DA IGREJA DO CONVENTO –

Em 31 de dezembro de 1834, o Bispo de Pernambuco Dom João Marques Perdigão esteve em Visita Pastoral à Freguesia de Ipojuca. Foi hospedado no Convento. Em seus diário – Itinerário das visitas do Bispo de Pernambuco, ele registrou também a visita ao convento:

“Dia 31 [de dezembro de 1944] - Saí de Nazaré pelas cinco horas da manhã e me dirigi à Freguesia de Ipojuca, onde cheguei pelas oito horas da mesma manhã [viajando a cavalo]. Fui recebido com aplausos e, debaixo do pálio, conduzido à [primitiva] Matriz., onde, cantado o Te Deum, ouvi missa e fui hospedado no Convento dos Franciscanos.”

“Dia 1º de janeiro [de 1835] – Celebrei pontificalmente na Festa do Santo Cristo pelas onze horas e de tarde conduzi o Santíssimo Sacramrento em solene procissão, durante a qual pegou fogo na capela do mesmo Santo Cristo, por cujo motivo, as mulheres choraram e, repentinamente, correu todo o povo à igreja e, depois de apagado o fogo, [o povo] bradou em altas vozes, dando vivas às imagens, e assistindo ao sermão, Te Deum e fogo artificial que acabou pelas 11 horas [da noite].”
“Dia 2 [de janeiro de 1935] – Pelas 10 hora abri a Visita, praticadas as cerimônias de costume, sendo os responsórios cantados pelos Religiosos Franciscanos. O Sacrário e mais utensílios estão decentes. Fui segunda vez recebido debaixo do pálio, e fiz prática do costume, e depois crismei mais de 200 pessoas, e finalizei o ato fazendo oração ao St.º Cristo, tido em grande veneração pelos povos desta e outras Freguesias...”
“Dia 4 [de janeiro de 1835[ - Ouvi missa, por estar doente dos olhos, e, depois, crismei quase 400 pessoas e, no fim desta ação, visitei o Santo Cristo.” [2]
“Desde as primitivas peregrinações à Terra Santa até as do Ano Santo e as romarias regionais, a Santa Sé concede abundantes indulgências aos peregrinos, e privilégios especiais aos sacerdotes. O santuário ipojucano mereceu esta distinção em 1936.” [3]


8. O SEGUNDO INCÊNDIO – Um século depois daquele primeiro incêndio, outro de grande proporções destruiu a Capela do Bom Jesus, a Igreja e pequena parte do Convento. Por sorte, ou melhor dizendo, por disposição da Divina Providência, o Convento escapou da destruição.
Para se entender mais exatamente o acontecido, temos que retornar ao tempo.
“Ipojuca não tinha luz elétrica continuada.A eletricidade era através de um gerador que era desligado a meia-noite. Em quase todas as casas tinha-se candeeiro a querosene. Não havia água encanada. A água era coletada na cacimba do Vigário, cuja construção foi feita pelo Pe. Firmino [...era tio-bisavô do Autor]; na cacimba de Seu Isaias [...feita pelo bisavô de Ivo e cunhado do Pe. Firmino] e na cacimba em Montevidéu.. As estradas eram de barro e não havia calçamento.

A igreja de Santo Cristo não tinha a forma que hoje possui. Onde hoje está a imagem de Santo Cristo [altar-mor], existia o altar-mor, todo trabalhado a canivete, de madeira cedro em estilo lembrando o gótico, tendo ao centro a imagem do Coração de Jesus, ladeado por dois anjos, e, ao lado dos anjos, as imagens de São Francisco e de Santo Antônio. Todas as imagens em madeira.
Os altares laterais também em madeira trabalhada, sobressaiam da parede cujo nicho que abrigava as imagens estava dentro das grossas paredes continham as imagens de Nossa senhora [da Conceição] no degrau superior e, no inferior, Santa Inês; à esquerda, no mesmo estilo, no degrau superior, São José, e, no inferior, São Luiz [Gonzaga].
Atrás do altar-mor eram guardadas as garrafas de azeite de mamona para a lamparina do e flores artificiais em papel crepon que, ao serem feitas, tinham sido mergulhas em cera derretida, material altamente inflamável. Não existiam flores de plástico naquela época.
A Capela do Senhor Santo Cristo ficava onde hoje está a capela do Coração de Jesus, portanto, junto à sala dos votos, onde está o Senhor Morto.” [4]

“Às 10 e meia da noite do dia 1 de março de 1935, devastador incêndio invadiu o Convento e o Sanuário. Correram todos os ipojucanos. As labaredas, bem altas, lambiam as paredes do templo. A fumaça sufocava. O calor era intensíssimo. Era, entretanto, preciso salvar a imagem do milagroso santo Cristo.
Alguns heróis anônimos derramaram água sobre as vestes e investiram, resolutos, para o interior do templo.Do tamanho natural de um homem, a imagem aguardava, apenas, os seus salvadores. O altar-mor era uma coluna de fogo. E toda a igreja era uma fornalha ardente. Mas a imagem do Senhor Santo Cristo nada sofreu em conseqüência do incêndio.” [5]
O historiador ipojucano Ivo d´Almeida relata em seu livro inédito Ipojuca – de uma Lenda à Verdade:
“Muito embora tenha se afirmado que fora o senhor Francisco Barreto, esposo de Dora Dulce, Professora paroquial [...] que deram o alarme sobre o incêndio, foi Dorino o primeiro a gritar alertando sobre o que estava acontecendo. [...] Um grito na rua não é nada, comparado com o alarme vindo logo da casa de D. Dulce [...], pessoa de destaque na cidade; por isso esqueceram de dorino, apenas um barbeiro, o primeiro que alertou sobre o incêndio.
As primeiras pessoas que chegaram ao convento foram: Dorino, que lá já estava; Seu Ferreira [...Isaias], Chico Samuel, Zé de Franco e Mário Feijó. Tocaram a campainha na portaria ainda hoje existente, incessantemente.
Frei Clementino veio do claustro, olhou-os pela janela do primeiro andar [a primeira por sobre a atual secretaria paroquial], junto ao cruzeiro, sem ainda perceber o desastre que estava por vir, e recusou-se a abrir a porta, talvez pensando se tratar de uma brincadeira de mau gosto ; afinal era a sexta-feira que antecedia o sábado de Zé Pereira, ou seja, o Carnaval”.[6]
“Após chamar incessantemente na portaria sem ser atendido, Zé de Franco trouxe um machado e quebrou o cadeado do portão que fica no lado direito, ao lado da casa dos romeiros [hoje portão da garagem], e o vitral [da nave da igreja] adentrando no interior do Convento. O fogo já consumia o altar-mor e parte do forro. Nesse momento, Chico Samuel, sozinho, tirou a imagem [do Senhor Santo Cristo] com a cruz que era encaixada na parede [da Capela do Bom Jesus] e correu para fora já ajudado pelos companheiros. [...Seu Ferreira ou Elias] correu à frente e abriu a retranca de ferro da porta principal. Ao abrir a porta, e antes que toda a cruz passasse, o altar-mor, ardendo em chamas, desabou. Na ânsia de retirar a imagem de Santo Cristo que já estava toda pipocada, pelo calor, foi quebrada uma das imagens que estavam no altar. Essas imagens eram feitas de gesso e tecido. Eram elas: ao pé da cruz: Nossa Senhora das Dores, ladeada por Maria Madalena e São João Evangelista.
Quando a imagem do Senhor Santo Cristo saiu, já havia uma multidão à porta do Convento. Imediatamente a multidão carregou-a até a calçada da Matriz (antiga igreja do Livramento] , onde Virgínia [apelidada Pinta], uma senhora que era Filha de Maria, forrou uma toalha branca e lá ficou depositado”.[7]

“A terrível e tenebrosa noite terminara às cinco horas da manhã do sábado, véspera do Carnaval de 1935, a capela-mor, a parte interna do convento [próxima à igreja, bem entendido], estavam reduzidas a cinzas e escombros por todos os lados. Neste ano não houve Carnaval em Ipojuca, só luto, esperança e resolução de reconstruir no menor espaço de tempo o maior orgulho dos verdadeiramente cristãos ipojucanos: o Santuário do Senhor Santo Cristo”.[8]
“Toda a cidade acordada. Das casas, crianças, jovens e adultos levavam água. O sino badalava sem parar. Da usina Salgado vinha caminhão com tonéis de água, o mesmo acontecendo com a usina ipojuca, na época usina Bandeira. Os homens posicionavam como uma esteira rolante por onde , em cujas mãos passavam as latas de água. Das paredes estouros ouviam-se provenientes da pedras de calcáreo de que elas eram feitas.
Os frades na época eram: Frei Venâncio, vigário; Frei Clementino; Frei Alfredo e os Irmãos religiosos Frei Manoel e Frei Ângelo.
Os impossibilitados em combater o incêndio choravam e rezavam. Grupos religiosos, homens, mulheres e crianças se revezavam entre o combate ao fogo e as orações junto à imagem [do Senhor santo Cristo] toda pipocada pelo calor na calçada da Matriz. Frei Clementino ajoelhado no meio da rua, de braços abertos cantava:
Senhor deus, misericórdia!
Senhor deus,
Pela vossa paixão e morte,
Misericórdia!
Senhor Deus,
Pelas dores de vossa Mãe Maria santíssima,
Misericórdia!
(...) [9]

“O fogo ameaçava destruir todo o Convento. Precisava combate-lo. Os cinco acima citados Zé de Franco, Isaias, Roque, Maurício] e mais Dorino se revezavam em isolar o fogo e isso se fez cortando a cumeeira que era de parabu, uma madeira da Mata-Atlântica não mais reencontrada. Frei Venâncio ao escrever sobre esta tragédia, deveria ter visto ou ser alertado que um homem estava serrando a cumeeira, e esse primeiro homem foi seu Roque, que era um dos carpinteiros da cidade e fora rendido posteriormente pelos cinco já citados.
Subia-se pelo sino, corria-se pelo telhado com água para molhar esses heróis anônimos para que o fogo também não os consumisse. Durante este trabalho, Antônio Maurício despencou do telhado, junto à porta da sacristia, passa por um buraco já feito pelo fogo e cai no chão. Nada sofre. Um arranhão sequer. O susto não teve tempo de se instalar, rasga apenas a calça que é substituída de imediato por uma de Francisco Barreto. Milagre? Não sei. No entanto maior foi ter a coberta da sala dos milagres, que era de zinco, se derreter e não ter nenhuma deformação nas peças de cera que a sala possuía e ainda hoje possue.”[10]


“O povo reconstruiu o Convento liderados por Frei Venâncio Vileke, toda areia, pedra e madeira foram carregadas pelo povo. A areia tirada do rio Ipojuca, as pedras da antiga igreja de São Roque [o que não é verdade, pois nunca houve igreja de S. Roque; as pedra foram as das ruínas da antiga matriz.] e cal, eram transformadas em alicerce para o novo Santuário, e madeira que foi doada pelo engenho Maranhão. O engenheiro responsável foi o Dr. Carlos Fest. O encarregado da construção foi o Dr. Renato Souza Leão, dono do Engenho Maranhão. O mestre de carpina foi Philippe dos Santos; o mestre pedreiro foi Domingos Gonçalves; o mestre marmorista foi Antônio Pedro de Alcântara e o mestre pintor foi Armando Ferreira dos Santos. Estes por serem mestres ou doutores foram lembrados e quem pegou no pesado, suor derramado por amor e devoção a Santo Cristo, foram esquecidos. Agora não mais!” [11]
Quem eram esses heróis anônimos? Ivo d’Almeida aponta-os resumidamente, depois de dizer o papel que cada um desempenhou durante o incêndio: Dorino, Chico Samuel, Zé de Franco, Estácio, Seu Roque, Maurício, Mário Feijó, Isaias (chamado também Seu Ferreira, pai de ivo, na época com 21 anos). “Excetuando Isaias, todos já falecidos.” [12]
Outros que tiveram participação ativa: Dona Belinha ( avó de Ivo,na época com 49 anos), Leonor (ou Nonô, tia de Ivo, na época com 17 anos)
Isaias (ou Seu Ferreira) e Leonor (ou Nonô), “ambos vivos e em perfeita lucidez”. [13]
“A reconstrução do telhado foi feita pelo mestre Pituta, Eugênio, Antônio Gomes, Manuel Florentino e e Joça, tudo feito a machado e enxó. Os pedreiros foram José Mariano, Pedrinho, nosso primo, filho de Pedro Alexandrino de Sousa ; Estácio e Zé de Lima”.[14]
[1] WILLEKE, Frei Venâncio -, OFM, Convento de Stº Cristo de Ipojuca, Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Vol. 13 – Rio de Janeiro, 1956, p. 69 a 70..

[2] Id. ibd. nota 11 ao Cap. XII, p. 89. Conf. também Itinerário das Visitas do Bispo de Pernambuco, Revista do Instituto Histórico Geográfico do Brasil, LV, Parte I, pp. 27 e 28.
[3] Id. ibd. nota 1 ao Cap XII, p. 88.
[4] Conf. D’ ALMEIDA, Ivo -, Ipojuca -de uma Lenda à Verdade, pp 37 e ss. .
[5] PIO, Fernando Pio, O Convento de Santo Antônio do Recife e as Fundações franciscanas em Pernambuco, Recife, 1939, p. 68 – 70.
[6] D’ ALMEIDA, Ivo -, Ipojuca -de uma Lenda à Verdade, p. 38.
[7] D’ ALMEIDA, Ivo -, Ipojuca -de uma Lenda à Verdade, p. 40 – 41.
[8] D´ALMEIDA, Ivo -, p. 42
[9] D’ ALMEIDA, Ivo -, Ipojuca -de uma Lenda à Verdade, p. 41.
[10] D’ ALMEIDA, Ivo -, op. cit. p. 41.
[11] D’ ALMEIDA, Ivo -, Ipojuca -de uma Lenda à Verdade, pp. 44 – 45.
[12] D’ ALMEIDA, Ivo -, p. 45.
[13] D’ ALMEIDA, Ivo -, p. 37.
[14] D’ ALMEIDA, Ivo -, p. 45.